Capítulo 125 - A aposta e Tosilos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 125 de 133
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Capítulo 125 - A aposta e Tosilos

Capítulo 125 - A aposta e Tosilos

Ao sair de Barcelona, Dom Quixote voltou os olhos para o ponto da praia onde havia caído e lamentou como quem contempla ruína de cidade vencida. Ali, dizia, sua desdita levara as glórias alcançadas; ali a fortuna dera suas voltas; ali suas façanhas haviam escurecido. Sancho respondeu com uma filosofia que surpreendeu o amo: coração valente deve sofrer nas desgraças como se alegra nas prosperidades. Ele próprio estivera contente enquanto governava e agora, escudeiro a pé, não se julgava destruído. Falou da Fortuna como mulher cega, bêbada e caprichosa, incapaz de saber a quem derruba ou levanta. Dom Quixote corrigiu a doutrina: nada acontece por acaso, tudo vem por providência, e cada homem trabalha a própria ventura. Ele ousara contra cavalo superior, perdera a honra do combate, porém conservaria a virtude de cumprir a palavra.

Esse cumprimento seria o noviciado de um ano em sua terra, recolhimento que talvez lhe desse novas forças para voltar ao exercício das armas. Sancho aceitou a ideia de retorno, mas reclamou da parte que lhe cabia: caminhar a pé não lhe parecia gosto capaz de mover grandes jornadas. Propôs pendurar as armas numa árvore, como troféu, para que o rucio ficasse livre e pudesse levá-lo. Dom Quixote gostou por um momento da imagem, imaginando versos gravados como os de Roldán, até Sancho sugerir que também Rocinante poderia ser pendurado, já que causara falta no combate. O cavaleiro recusou tal ingratidão. Sancho devolveu a culpa ao dono, dizendo que o erro não devia rebentar nas armas partidas, na mansidão de Rocinante ou na brandura de seus pés.

Assim seguiram o dia inteiro e outros quatro, sem aventura que lhes impedisse o caminho. No quinto, à entrada de um lugar, acharam muita gente reunida diante de um mesão por ser dia de festa. Um lavrador pediu que aqueles viajantes, desconhecedores das partes envolvidas, julgassem uma aposta. O caso era simples e absurdo: um homem gordíssimo, de onze arrobas, desafiara outro de cinco arrobas para correr cem passos. Para igualar as condições, queria que o magro carregasse seis arrobas de ferro, ficando ambos com o mesmo peso. Antes que Dom Quixote respondesse, Sancho reclamou para si a decisão, lembrando que havia poucos dias fora governador e juiz. O amo concedeu a palavra, pois trazia o juízo demasiado revolto para dar migalhas a um gato.

Sancho sentenciou com clareza. Se o desafiado tem direito de escolher armas, essas armas não podem ser tais que o impeçam de vencer. O gordo, por ser o desafiante, deveria aparar, cortar e diminuir seis arrobas de suas próprias carnes, até ficar com cinco e correr em igualdade com o adversário. Os presentes abriram a boca diante da sentença e um deles declarou que Sancho falara como bendito e julgara como cônego, embora o gordo jamais aceitasse perder uma onça, quanto mais seis arrobas. Outro propôs solução mais prática: que ninguém corresse, que metade da aposta virasse vinho e que levassem os viajantes à taberna do melhor. Dom Quixote agradeceu, mas recusou a demora, porque pensamentos tristes o obrigavam a seguir. Os camponeses ficaram admirados da figura do amo e da discrição do criado, concluindo que, se Sancho era assim, grande coisa devia ser seu senhor.

Na noite seguinte dormiram ao relento. No outro dia viram aproximar-se um homem a pé, com alforjas ao pescoço e chuzo na mão, jeito claro de correio. Ao reconhecer Dom Quixote, abraçou-lhe a perna com alegria e disse que o duque se alegraria ao saber que ele voltava ao castelo. Dom Quixote não o reconheceu. O homem apresentou-se: era Tosilos, o lacaio que se negara a combater pelo casamento da filha de doña Rodríguez. O cavaleiro atribuiu a aparência a encantamento, convencido de que os inimigos haviam mudado o verdadeiro ofensor naquele lacaio. Tosilos pediu que se deixasse disso. Entrara lacaio na estacada e lacaio saíra; quisera casar-se sem combate porque a moça lhe agradara, mas o duque mandara dar-lhe cem paus por descumprir as ordens. A jovem fora para um convento, doña Rodríguez voltara a Castela, e ele seguia a Barcelona com cartas para o vice-rei.

Tosilos ofereceu vinho quente e puro, com fatias de queijo de Tronchón capazes de acordar qualquer sede. Sancho aceitou a cortesia de imediato, contra todos os encantadores do mundo. Dom Quixote repreendeu-o, chamando-o de glotão e ignorante por não perceber que aquele correio era figura encantada ou Tosilos falsificado. Seguiu adiante devagar, deixando o escudeiro entregue ao convite. Tosilos abriu a cabaça, tirou pão e queijo, e os dois se sentaram na erva em paz tão completa que quase lamberam o pacote das cartas por cheirar a queijo. O lacaio perguntou se o amo de Sancho era de fato louco. Sancho respondeu que Dom Quixote pagava tudo com a própria moeda, e a moeda era loucura; sabia disso e dizia ao amo, sem proveito algum, ainda mais agora que vinha rematado pela derrota da Branca Lua. Tosilos quis ouvir a história, mas Sancho lembrou que seria descortês deixar o senhor esperando. Sacudiu as migalhas da barba, despediu-se e alcançou Dom Quixote à sombra de uma árvore.

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