Capítulo 36 - O cavaleiro na venda
Capítulo 36 - O cavaleiro na venda
Depois que Fernando, Doroteia, Cardenio e Lucinda encontraram algum repouso, a venda ficou tomada por uma calma desconfiada. A paz plena ainda não chegara; havia apenas intervalo. As palavras mais difíceis já tinham sido ditas, os nomes haviam voltado a seus donos, e cada coração parecia experimentar, com cuidado, a possibilidade de não se quebrar de novo. Só Dom Quixote permanecia no centro de outra história.
Para ele, a Princesa Micomicona ainda precisava de amparo. Doroteia, agora reconhecida em sua verdade, não podia abandonar de repente a máscara sem arriscar todo o plano. O cura explicou-lhe isso em voz baixa. Ela compreendeu. A ficção que começara como instrumento de resgate ainda era necessária para conduzir Dom Quixote de volta ao mundo comum. Doroteia aceitou continuar princesa por mais algum tempo, embora já soubesse melhor que ninguém o peso de nomes falsos.
Dom Quixote, satisfeito com a ordem restabelecida entre aqueles desconhecidos, interpretou tudo como efeito indireto de sua presença. Acreditava que o castelo onde repousavam fora beneficiado pela chegada de um cavaleiro andante. Damas foram protegidas, homens nobres reconduzidos à honra, lágrimas transformadas em promessas. Se ninguém lhe pedia ainda para partir contra o inimigo de Micomicão, era apenas porque convinha preparar a empresa com prudência.
Sancho discordava em silêncio. Para ele, a principal empresa pendente era o jantar e, em seguida, a ilha. A reconciliação dos enamorados lhe parecera bonita, sem dúvida, mas não esclarecera se o governo prometido continuava de pé. Aproximou-se de Doroteia com reverência prática e perguntou se Sua Alteza conservava lembrança dos serviços futuros de seu escudeiro. Doroteia, sem perder o rosto de princesa, prometeu que nenhum serviço leal seria esquecido. Sancho afastou-se consolado. O cura viu a cena e suspirou. A mentira estava ficando com raízes.
O vendeiro observava tudo com avaliação própria. Se aqueles fidalgos pagassem, pouco importava que uma fosse princesa de reino inexistente e outro cavaleiro de castelo imaginário. O problema era Dom Quixote. A memória da primeira hospedagem ainda lhe doía nas contas e nos móveis. Por isso decidiu não discutir títulos, encantamentos ou bálsamos. Serviria comida, recolheria animais e manteria distância de qualquer espada desembainhada por excesso de imaginação.
À mesa, cada um carregou sua história. Fernando falou pouco, sob o olhar ainda firme de Doroteia. Cardenio e Lucinda sentaram-se próximos, como se a distância entre duas cadeiras pudesse repetir antigas tragédias. O barbeiro comeu com alívio. O cura administrou conversas, desviando Dom Quixote sempre que este queria detalhes sobre o gigante inimigo de Micomicão.
Mas o cavaleiro insistia. Perguntou à princesa o nome completo do usurpador, a altura de suas muralhas, o número de soldados e a natureza dos agravos. Doroteia respondeu com prudência teatral. Disse que o gigante era feroz, que o reino sofria, que a fama de Dom Quixote bastava para reacender esperança. O cavaleiro aceitou a resposta com gravidade, porque nela cabia exatamente a aventura que desejava viver.
Sancho, ouvindo falar em gigante, perdeu um pouco da confiança. Gigantes costumavam render glória ao amo e ossos quebrados ao escudeiro. Perguntou se não seria possível recuperar o reino por carta, negociação ou milagre administrativo. Dom Quixote censurou a covardia. Sancho respondeu que chamava aquilo de economia de pancadas. A mesa quase sorriu inteira.
O riso, pequeno e contido, fez bem à venda. Depois de tanta dor, a loucura de Dom Quixote parecia menos ameaça que distração perigosa. Lucinda olhou para Doroteia e as duas entenderam, sem dizer, a estranha bondade daquela encenação. O cavaleiro estava enganado, mas seu engano havia servido para mover pessoas paradas pelo medo. A ficção de um homem ajudara a verdade dos outros a chegar ao lugar certo.
O cura, entretanto, não se deixou amolecer demais. Precisava pensar adiante. Não bastava manter Dom Quixote alimentado e satisfeito naquela noite. Era necessário levá-lo de volta à aldeia, afastá-lo das estradas, talvez inventar nova manobra. A aventura de Micomicona podia conduzi-lo por algum tempo, mas em algum ponto teria de terminar sem revolta. O problema, como sempre, era encerrar uma fantasia diante de quem morava dentro dela.
O barbeiro sugeriu, em particular, que se aproveitassem do cansaço do cavaleiro. Se dormisse bem, talvez no dia seguinte aceitasse viajar com menos perguntas. O cura duvidou. Dom Quixote acordava dentro da cavalaria como outros acordam dentro do próprio corpo. Ainda assim, toda hora de descanso era ganho.
Quando a noite avançou, Dom Quixote pediu que se guardasse a honra da princesa e a segurança do castelo. Quis organizar vigília, examinar portas, distribuir postos. O vendeiro protestou que sua casa não precisava de guerra. Sancho apoiou o vendeiro pela primeira vez, alegando que guardas famintos não guardavam nada direito. Doroteia, com autoridade de Micomicona, pediu ao cavaleiro que conservasse forças para o combate futuro. Foi o bastante. Dom Quixote cedeu.
Assim, a venda voltou a respirar. Os enamorados recolheram-se com esperança cautelosa. O cura e o barbeiro ficaram ainda um tempo combinando passos. Sancho procurou lugar onde deitar e sonhar com governos. Doroteia guardou a máscara de princesa ao lado da verdade recuperada. Dom Quixote, convencido de que velava por todos mesmo descansando, entregou-se ao sono com a certeza de que o mundo melhorara um pouco por causa de sua espada.
Talvez estivesse enganado quanto à espada. Mas naquela noite, na venda, até os sensatos tiveram de admitir que uma mentira bem conduzida havia servido de ponte entre dores verdadeiras. O perigo era que pontes também precisam terminar em algum chão. E o chão de Dom Quixote, quando aparecia, costumava chegar duro.