Capítulo 45 - O relato do cativo
Capítulo 45 - O relato do cativo
Quando todos se acomodaram, o cativo começou a falar. Falou baixo no início, como quem puxa da memória uma carga antiga e precisa pôr as perdas em ordem para não se perder nelas. Zoraida sentou-se perto das mulheres, ouvindo palavras que conhecia em parte e em parte apenas pelo tom. O cura pediu quietude. Até Dom Quixote, por respeito à promessa de aventuras de guerra, aquietou-se.
O cativo disse que nascera em família honrada, com poucos bens e bastante ambição de serviço. Tinha irmãos, e a casa paterna, como tantas casas, precisou dividir esperanças. Um seguiria letras, outro comércio ou governo doméstico; ele, inclinado às armas, escolheu a estrada militar. Havia vaidade nessa escolha. A guerra prometia nome, sustento e ocasião para mostrar valor.
Serviu primeiro em companhias cristãs, aprendendo que a glória dos soldados costuma chegar misturada a frio, fome, espera e ordens mal compreendidas. Viu portos, navios, fortalezas e homens de muitas línguas. O Mediterrâneo, que aos olhos de quem fica em terra parece apenas caminho azul, revelou-se para ele uma fronteira viva: cristãos e mouros, corsários, resgates, bandeiras, fé e medo cruzavam suas águas sem descanso.
Dom Quixote ouviu a palavra guerra com atenção aumentada. Sancho, menos tocado por glória marítima, perguntou baixo se soldados comiam melhor que escudeiros. O barbeiro mandou-o ouvir. O cativo continuou, talvez sem perceber a pequena interrupção.
Contou batalhas e deslocamentos sem demorar em cada nome. Falou de campanhas em que a coragem dependia tanto de disciplina quanto de ímpeto. Falou de companheiros mortos longe de casa, de oficiais ambiciosos, de promessas de recompensa que o mar engolia. A venda escutava. Aquela aventura tinha poeira, sal e sangue; vinha da vida militar, não dos livros de cavalaria.
Por fim veio a captura. Em uma jornada de mar, entre combate, desordem e má fortuna, seu navio caiu em poder de corsários. Alguns morreram. Outros foram acorrentados. Ele foi levado a Argel, cidade de mercado humano, onde cada homem capturado era avaliado por força, origem, possibilidade de resgate e utilidade.
A palavra Argel cruzou a sala com peso próprio. O cura inclinou a cabeça. Fernando e Cardenio, homens de espada, ouviram com respeito. Doroteia observou Zoraida, tentando imaginar o que aquela cidade significava para ela: casa deixada, perigo vencido, memória ambígua. Zoraida manteve os olhos baixos, mas não parecia ausente.
No cativeiro, disse o homem, aprende-se outra medida do tempo. Cada dia é comprido porque a liberdade não chega; cada mês é curto porque a esperança de resgate se desgasta. Havia cativos de muitos lugares, alguns pacientes, outros desesperados, alguns ricos em promessa de pagamento, outros quase esquecidos pelo mundo. O valor de cada vida era calculado por senhores que sabiam transformar saudade em preço.
Ele pertenceu a um amo severo, ainda que houvesse senhores piores. Teve trabalhos, privações e humilhações. Viu homens castigados por tentar fuga, outros enlouquecidos por cartas que nunca vinham, outros ainda agarrados à fé como a última propriedade que ninguém conseguia vender. O cativo falava sem exagero, e justamente por isso cada imagem parecia mais firme.
Sancho, tocado apesar de si, disse que ser pobre em liberdade era melhor que valioso em corrente. Dom Quixote aprovou a sentença, achando-a digna de escudeiro em momento raro. O cativo sorriu de leve e continuou.
Havia em Argel uma casa vizinha à prisão ou ao lugar onde alguns cativos eram recolhidos. Dela vinha às vezes olhar feminino por janela alta, sinal rápido, sombra de alguém que não podia aparecer plenamente. No início, o cativo não deu importância. Em terras de cativeiro, qualquer sinal podia ser acaso, armadilha ou ilusão nascida da necessidade de esperança. Depois, porém, os sinais se repetiram.
A mulher era Zoraida, embora então ele ainda não soubesse como seu nome chegaria à sua vida. Filha de mouro rico, criada em casa de outro mundo, ela tinha ouvido falar dos cristãos, de sua fé e de Nossa Senhora por caminhos que o cativo prometeu explicar depois. Por ora, disse apenas que ali começava a parte mais espantosa de sua história: a ajuda inesperada vinda de onde ele menos poderia exigi-la.
Zoraida ouviu seu nome e levantou o olhar. A venda inteira pareceu voltar-se para ela com cuidado. Estava ali, presente, tentando passar pela língua dos outros para ser reconhecida. Doroteia tocou-lhe de leve a mão. Lucinda sorriu. Zoraida respondeu com uma pequena inclinação de cabeça.
O cativo explicou que, antes de qualquer plano, houve sinais. Uma cana descida por janela. Um pano. Pequenos bilhetes. Moedas ou joias enviadas em segredo. Promessas difíceis de entender. Ela queria tornar-se cristã e fugir. Ele queria liberdade, mas temia armadilha. Entre ambos havia muros, religião, idioma, vigilância e o abismo enorme de confiar quando a vida inteira dependia disso.
O cura percebeu que o relato entrava em parte delicada e sugeriu que o cativo descansasse antes de seguir. O homem concordou. Dissera o bastante para que todos entendessem a origem de sua gravidade: soldado por escolha, cativo por fortuna, sobrevivente por paciência, e agora companheiro de uma mulher que arriscara tudo para mudar de destino.
Dom Quixote, emocionado à sua maneira, declarou que o cativo era homem digno de armas e que Zoraida merecia proteção de rainha. Sancho perguntou se Argel ficava perto de alguma ilha governável, mas desta vez quase ninguém lhe respondeu. A venda estava presa ao começo daquela nova história. O cativo prometeu continuar: contaria como Zoraida lhe revelou seu desejo, como prepararam a fuga e como o mar, que o levara ao cativeiro, quase se tornou caminho de libertação.