Capítulo 69 - O encantamento de Dulcineia
Capítulo 69 - O encantamento de Dulcineia
Dom Quixote ficou no arvoredo, entregue a pensamentos que iam de Dulcineia ao destino e voltavam ao mesmo nome como ave presa dentro de quarto fechado. Ordenara a Sancho que retornasse ao Toboso, falasse com a senhora de seus pensamentos e trouxesse licença para que ele se apresentasse diante dela. O escudeiro aceitou a missão com rosto firme e coração em aperto. Mal perdeu de vista o amo, desceu do rucio, sentou-se ao pé de uma árvore e começou a discutir consigo mesmo. Perguntava a Sancho Pança para onde ia Sancho Pança, que princesa buscava, que palácio conhecia e que resposta esperava trazer de mulher que jamais recebera carta alguma.
Depois de muito se interrogar, achou saída conforme sua necessidade. Se Dom Quixote tomava moinhos por gigantes, rebanhos por exércitos e vendas por castelos, também poderia tomar uma lavradora por Dulcineia, desde que Sancho defendesse a invenção com voz bastante teimosa. Ficou ali até a tarde, para que o tempo parecesse gasto em ida e volta, e quando se preparava para regressar viu três moças do campo vindo do lado do Toboso, montadas em três animais humildes. A ocasião caiu em suas mãos como moeda achada. Esporeou o rucio e correu ao encontro de Dom Quixote, que o recebeu cheio de ansiedade, querendo saber se o dia merecia pedra branca ou pedra escura.
Sancho respondeu que merecia marca vermelha em parede grande, pois as novas vinham melhores do que ele próprio esperava. Disse que Dulcineia saíra ao campo acompanhada de duas donzelas, vestida com riqueza capaz de ferir os olhos, montada em fina hacaneia, com os cabelos soltos como fios de sol. Dom Quixote tremeu entre alegria e receio. Perguntou se o escudeiro zombava de sua tristeza. Sancho jurou que a verdade vinha tão perto que bastava avançar alguns passos para vê-la. Prometeu à imaginação do amo brocados, pérolas, rubis, ouro e toda a grandeza que uma língua assustada consegue pôr sobre três mulheres de aldeia.
Saíram do arvoredo. Dom Quixote olhou para o caminho e viu somente três lavradoras sobre três burricas. A primeira vinha com rosto redondo, maneiras apressadas e pouca disposição para cerimônias. Sancho, antes que o amo desmentisse tudo, lançou-se ao chão, tomou o cabresto de um dos animais e saudou a mulher como rainha, princesa e duquesa da formosura, pedindo que recebesse em graça o cavaleiro cativo que ali estava sem pulso diante de sua presença. Dom Quixote ajoelhou-se ao lado dele, mudo e ferido, porque seus olhos lhe davam uma aldeã onde seu desejo esperava uma senhora. As mulheres, detidas no caminho, olharam aqueles dois homens como se tivessem saído de febre ruim.
A lavradora mandou que se apartassem e deixassem passagem. Outra, menos paciente, soltou palavras rudes contra aqueles senhores que vinham caçoar de mulheres trabalhadoras. Sancho insistiu no teatro com devoção escandalosa, chamando a moça de estrela do Toboso e sustento da cavalaria. Dom Quixote, enfim, encontrou explicação capaz de conservar a fé e aceitar a vista. Algum encantador inimigo cobrira Dulcineia com forma baixa, fechara para ele os caminhos da alegria e deixara somente Sancho livre para ver a beleza verdadeira. Falou à dama mudada com tristeza cerimoniosa, pedindo que recebesse seu serviço ainda sob aquela aparência imposta por malícia.
A mulher, livre do cabresto, feriu a burrica com a vara e tentou seguir depressa. O animal, incomodado, deu saltos e derrubou-a no chão. Dom Quixote correu para levantá-la, Sancho ajustou a albarda, e a moça, sem esperar braços de cavaleiro, tomou impulso e subiu de novo com agilidade que deixou o escudeiro em festa. Ele proclamou que sua senhora montava melhor que qualquer homem adestrado e que as donzelas corriam como vento. As três se afastaram sem olhar para trás. Dom Quixote acompanhou a poeira com os olhos até perdê-la de vista, sentindo que a aventura começava marcada por uma privação mais dura que pancada.
Quando ficaram sozinhos, o cavaleiro lamentou a inveja dos encantadores. Haviam tirado de Dulcineia o rosto, a compostura e até o perfume que caberia a tão alta senhora, pois, ao aproximar-se dela, sentira cheiro de alho cru que lhe envenenara a alma. Sancho fingiu indignação contra os malfeitores invisíveis e acrescentou detalhes à mentira, inventando lunar, cabelos dourados sobre o lábio e riqueza de arreios que Dom Quixote, por desgraça própria, não pudera contemplar. O amo acolheu cada absurdo como resto de perfeição escondida. Depois de muito falar, montaram outra vez e tomaram a estrada de Zaragoza, levando consigo uma Dulcineia ausente, agora mais poderosa por estar encantada.