Capítulo 111 - A segunda Dolorida Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 111 de 133
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Capítulo 111 - A segunda Dolorida

Capítulo 111 - A segunda Dolorida

Quando Dom Quixote sarou dos arranhões recebidos na aventura dos gatos, começou a sentir que a vida no castelo contrariava a ordem da cavalaria andante. Tanto repouso, tanta mesa posta e tanto agrado de senhores prendiam-lhe o espírito. Resolveu pedir licença aos duques para seguir a Zaragoza, onde se aproximavam festas de armas e onde esperava ganhar honra diante de muita gente. Estava um dia à mesa, já disposto a expor o pedido, quando entraram pela sala duas mulheres cobertas de luto da cabeça aos pés. Uma delas chegou-se ao cavaleiro e lançou-se comprida no chão, colando a boca aos pés dele com gemidos tão fundos que todos ficaram suspensos.

Os duques pensaram primeiro que fosse nova invenção de criados, mas a dor insistente daquela mulher os deixou em dúvida. Dom Quixote, compadecido, levantou-a e pediu que descobrisse o rosto. Então apareceu doña Rodríguez, a dueña da casa, e ao lado dela estava a filha enganada pelo filho do lavrador rico. A surpresa foi geral, sobretudo dos duques, que a julgavam simples, mas não a ponto de se lançar a semelhante escândalo diante de toda a mesa. Doña Rodríguez pediu licença para tratar com o cavaleiro, pois o negócio dizia respeito ao agravo de um mau villão. O duque autorizou, curioso para ver até onde a ousadia chegaria.

A dueña lembrou a Dom Quixote que já lhe contara a desonra da filha e recebera dele promessa de amparo. Agora soubera que o cavaleiro pretendia deixar o castelo em busca de novas aventuras, e por isso pedia que, antes de partir, desafiasse o rústico indomável e o obrigasse a casar com a moça, cumprindo a palavra dada antes de possuí-la. Quanto à justiça do duque, dizia ela, melhor era não esperar, pela razão secreta que já confiara ao cavaleiro. Dom Quixote respondeu com gravidade. Mandou que poupasse lágrimas, pois tomava o remédio da filha a seu cargo. Repreendeu de passagem a facilidade com que moças creem promessas de enamorados, leves ao prometer e pesadas ao cumprir, e declarou-se pronto a buscar o faltoso, desafiá-lo e matá-lo se recusasse a palavra empenhada.

O duque interveio dizendo que não havia necessidade de procurar o moço. Ele próprio o daria por desafiado e o faria vir ao castelo, onde haveria campo seguro e igualdade de justiça. Dom Quixote aceitou e, por aquela vez, renunciou à superioridade de fidalgo para igualar-se ao ofensor, pois não queria que diferença de nascimento impedisse o combate. Desafiou-o mesmo ausente, dizendo que deveria cumprir o casamento ou morrer na demanda. Tirou então uma luva e atirou-a no meio da sala. O duque a ergueu, aceitando o desafio em nome do vassalo, marcou prazo de seis dias, campo na praça do castelo e armas de cavaleiros, sem engano, amuleto ou superstição. Pediu apenas que doña Rodríguez e a filha pusessem sua causa nas mãos de Dom Quixote. Ambas concordaram, uma com decisão, outra com vergonha e lágrimas.

O duque já imaginava o que faria. As duas enlutadas saíram, e a duquesa mandou que dali por diante não fossem tratadas como criadas, mas como senhoras aventureiras vindas pedir justiça. Deram-lhes quarto separado e serviço de forasteiras, para espanto das outras criadas, que não sabiam onde acabaria a mistura de simplicidade, atrevimento e desgraça da dueña. Para aumentar a festa, entrou então o pajem que levara as cartas e presentes a Teresa Pança. Os duques alegraram-se com sua volta e quiseram saber tudo, mas ele pediu que a narrativa ficasse para momento reservado. Por enquanto, trazia duas cartas: uma para a duquesa, escrita por Teresa, e outra para Sancho Pança, governador da ilha Baratária.

A duquesa abriu sua carta com pressa. Teresa agradecia o colar de corais e o vestido de caça do marido, contava que a aldeia inteira se alegrara com o governo de Sancho, embora cura, barbeiro e bacharel custassem a acreditar. Ela própria talvez não acreditasse sem presentes tão palpáveis. Dizia estar decidida a aproveitar o bom dia e ir à corte em coche, para quebrar os olhos dos invejosos e fazer o marido conhecido por ela. Pedia que Sancho mandasse algum dinheiro de consideração, porque na corte tudo custava caro. Lamentava a pouca colheita de bolotas, mas enviava meio alqueire escolhido uma por uma no monte, desejando que fossem grandes como ovos de avestruz. Encerrava pedindo novas cartas e assinava como criada desejosa de ver a duquesa.

Todos riram e se deliciaram com a carta. A duquesa pediu que também se abrisse a de Sancho, e Dom Quixote, para agradá-la, leu-a. Teresa escrevia ao marido que quase enlouquecera de alegria ao saber do governo. Tinha diante de si o vestido, ao pescoço os corais, nas mãos as cartas e, ainda assim, pensava estar sonhando, pois quem imaginaria um pastor de cabras feito governador de ilhas. Contava que cura, barbeiro, sacristão e Sansón chamavam tudo de embuste ou encantamento; ela apenas ria, olhava o colar e pensava no vestido que faria para Sanchica. Pedia pérolas, se fossem usadas naquela terra, dava notícias da aldeia, casamentos, promessas quebradas, soldados que levaram moças, a fonte seca e um raio caído na picota. Queria resposta sobre a ida à corte e terminava pedindo que Deus guardasse Sancho tantos anos quanto ela, ou mais, pois não desejava deixá-lo sozinho no mundo.

As cartas foram celebradas, lidas e admiradas. Para completar o gosto, chegou também a carta que Sancho enviara a Dom Quixote, e sua leitura pública fez alguns duvidarem de que o governador fosse tão tolo quanto parecia. A duquesa retirou-se depois para ouvir do pajem tudo que acontecera na aldeia. Ele contou as cenas de Teresa e Sanchica, entregou as bolotas e acrescentou um queijo muito bom que Teresa mandara. A senhora recebeu tudo com grande prazer. A história, então, deixa por um instante a duquesa satisfeita com cartas, bolotas e queijo, pois é tempo de contar o fim do governo do grande Sancho Pança, flor e espelho dos governadores insulanos.

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