Capítulo 51 - Os criados de Dom Luís
Capítulo 51 - Os criados de Dom Luís
A manhã encontrou a venda ainda cheia de fios mal atados. O cativo e Zoraida guardavam o espanto recente de terem sido acolhidos pelo ouvidor; Clara trazia nos olhos o segredo da voz que a noite deixara suspenso; Cardenio, Doroteia, Fernando e Lucinda ainda pareciam sobreviver ao próprio reconhecimento. E Dom Quixote, que via castelo onde todos viam pouso, julgava que tantos encontros extraordinários provavam apenas uma coisa: aquele lugar estava encantado e reservado a feitos de cavalaria.
Foi nesse equilíbrio frágil que chegaram quatro homens bem postos, cansados da estrada e atentos como quem procura alguém que não convem perder. Perguntaram ao vendeiro se por ali passara um moço de certa idade, roupas trocadas, modos finos demais para criado e pressa demais para viajante comum. O vendeiro, que já aprendera a pesar respostas antes de entregá-las, olhou para dentro da casa. Sancho percebeu a intenção e farejou confusão, uma mercadoria que naquela venda parecia servida a qualquer hora.
Os homens não tardaram a reconhecer Dom Luís. Ele estava perto de Clara, tentando parecer menos inquieto do que estava. Bastou que um deles dissesse seu nome com a autoridade de casa grande para que o disfarce acabasse. Clara empalideceu. O ouvidor, pai dela, voltou-se de imediato para o jovem, e o silêncio se abriu como porta. A voz da noite, que parecera música sem corpo, surgia agora diante de todos: filho de gente poderosa, moço apaixonado, fugitivo de sua própria família.
Os criados cercaram Dom Luís com respeito e firmeza. Disseram que seu pai o procurava aflito, que a honra da casa estava em jogo, que a ausência do filho levantara rumor e medo. Deviam levá-lo de volta sem demora. Dom Luís ouviu sem baixar os olhos. Respondeu que não fugira por capricho, nem por vício, nem por companhia indigna. Fugira porque amava Clara e porque, sem ela, qualquer obediência lhe parecia morte antecipada. Falou com ardor juvenil, mas não sem nobreza.
Clara quis desaparecer dentro do próprio rubor. O ouvidor, dividido entre surpresa, cuidado paterno e avaliação social, pediu que o jovem explicasse tudo com clareza. Dom Luís confessou que a vira antes, que seu afeto crescera em segredo e que a seguira quando soube da viagem. A voz que cantara de noite era dele. Não pretendia manchar o nome de Clara, mas pedir caminho honrado para merecer sua mão. Se houvesse culpa, dizia, ela era sua, pois Clara nada lhe prometera alem do silêncio assustado de quem também se descobre amada.
Os criados insistiram. Não tinham ordem para discutir casamento, futuro ou poesia. Tinham ordem para reconduzir o rapaz. Um deles, mais velho, falou com prudência: Dom Luís era menor em obediência, ainda que grande em vontade; seu pai não toleraria que uma decisão tão alta fosse tomada em venda de estrada, diante de estranhos, por impulso de canto noturno. O jovem respondeu que, se o levassem a força, levariam apenas o corpo, porque a vontade ficaria ali, ajoelhada aos pes de Clara.
O conflito teria crescido depressa se o cura não entrasse no meio com sua voz de homem acostumado a apaziguar casas e consciências. Pediu moderação aos criados, paciência ao moço e tempo ao ouvidor. Fernando também interveio, talvez porque reconhecesse no impeto de Dom Luís um espelho menos culpado de suas antigas violências. Disse que a qualidade do jovem e a honestidade de Clara mereciam tratamento mais alto que arrasto e escandalo. O cativo, recem-reconhecido como irmão, ficou junto do ouvidor, oferecendo presença silenciosa.
Dom Quixote, vendo homens cercarem um jovem enamorado e uma donzela assustada, concluiu que se tramava nova afronta cavaleiresca. Pos a mão na espada e declarou que em seu castelo nenhuma dama seria forçada contra sua vontade, nem nenhum amante leal arrastado por servidores sem primeiro medir-se com o braço de Dom Quixote de la Mancha. Sancho tentou puxa-lo pelo juízo, lembrando em voz baixa que criados de casa nobre costumavam trazer problemas de verdade, diferentes dos gigantes que se resolviam pela imaginação. Mas o amo já estava inflamado.
A ameaça de Dom Quixote, embora absurda, teve o efeito de interromper todos. Os criados olharam para ele sem saber se riam, temiam ou pediam ajuda. O cura aproveitou a pausa e pediu que ninguém tocasse em armas. O ouvidor, recuperando o governo de si mesmo, declarou que Dom Luís não seria levado como prisioneiro enquanto ele não entendesse melhor a causa. Também deixou claro que Clara ficaria sob sua proteção, sem pressa nem humilhação. A decisão não encerrava o caso, mas impedia que ele se partisse no primeiro choque.
Dom Luís, comovido, agradeceu ao ouvidor e jurou que aceitaria qualquer exame, desde que não o separassem de Clara sem ouvir sua verdade. Clara, ainda calada, ergueu os olhos por um instante. Foi pouco, mas suficiente para que o jovem lesse ali mais esperança do que condenação. Os criados recuaram, contrariados, prometendo mandar notícia ao pai do rapaz. A venda, que já abrigara cavaleiros, fugitivos, amantes, juizes, cativos e princesas fingidas, recebia agora mais um processo sem mesa nem papel.
Quando a tensão baixou, Sancho suspirou como quem escapa de uma pancada invisível. Disse que aquela casa tinha mais casos que uma feira e menos paz que campo de batalha. Dom Quixote respondeu que os castelos encantados eram assim mesmo: reuniam aflições para que os cavaleiros pudessem desfaze-las. O cura não o contradisse. Tinha aprendido que, naquela venda, a fantasia de um louco às vezes ajudava os sensatos a ganhar tempo.
O caso de Dom Luís ficou suspenso, guardado entre a autoridade do pai ausente, a cautela do ouvidor, o pudor de Clara e a teimosia amorosa do jovem. Ninguém sabia ainda que outra desordem bateria à porta antes que aquela se resolvesse. Mas todos sentiam que a venda, longe de esvaziar-se, acumulava destinos como quem aproxima brasas para uma chama maior.