Capítulo 74 - A derrota de Sansón Carrasco
Capítulo 74 - A derrota de Sansón Carrasco
Dom Quixote seguiu adiante contente, ufano e seguro de haver vencido cavaleiro de grande poder. A vitória devolvera vigor ao seu ânimo, tão castigado pelo encantamento de Dulcineia. Esperava que o vencido fosse ao Toboso e descobrisse ali se a senhora permanecia sob forma rústica ou se os encantadores já haviam cessado a ofensa. Sancho ia ao lado, menos seguro. Reconhecera Tomé Cecial por sinais de voz, corpo e vizinhança, vira também a cara de Sansón Carrasco, mas a explicação mágica do amo continuava trabalhando nele. Entre o compadre verdadeiro e o encantamento possível, preferiu seguir calado, pois certas dúvidas, quando faladas, chamam pancada ou sermão.
A história, porém, precisa abrir agora o que ficara escondido. Quando Sansón Carrasco aconselhara Dom Quixote a retomar a cavalaria, fizera isso depois de combinar com o cura e o barbeiro um remédio indireto. Prender o fidalgo em casa parecia impossível. Convencia-se pela porta e saía pela janela do pensamento. Então decidiram deixá-lo partir e mandar Sansón ao caminho, armado como cavaleiro andante. O bacharel deveria provocar combate, vencer Dom Quixote com facilidade presumida e impor, como condição honrada, que o vencido voltasse à aldeia e permanecesse quieto durante dois anos, tempo bastante para que a febre dos livros perdesse força ou recebesse tratamento melhor.
Sansón aceitou a empresa com confiança de estudante espirituoso. Tomé Cecial, vizinho e compadre de Sancho, entrou nela como escudeiro por amizade, curiosidade e certo gosto de aventura emprestada. Para que Sancho não o reconhecesse, acomodou sobre o rosto aquelas narizes enormes de máscara, feitas de pasta e verniz, bastante feias para assustar qualquer homem de boa digestão. Os dois seguiram o rastro de Dom Quixote e chegaram perto da aventura da carreta da Morte. Depois alcançaram o bosque, onde a invenção andou conforme o plano até o momento em que a realidade, sempre pouco obediente a bacharéis, resolveu escolher outro lado.
Sansón esperava encontrar ninho pronto e achou passarinho de bico duro. Dom Quixote tomou por encantamento justamente aquilo que deveria curá-lo, e a batalha terminou ao contrário do combinado. A lança de Rocinante, o tropeço do cavalo adversário e a fortuna deram ao louco a vitória que os prudentes tinham desenhado para si. Tomé Cecial, vendo o bacharel no chão, sem ar e quase sem cor, entendeu que a brincadeira passara da medida. Pediu a Dom Quixote que não o ferisse, tirou a máscara, revelou o nome e salvou Sansón da espada que já buscava inimigo dentro do amigo. O cavaleiro manchego aceitou a verdade apenas como nova aparência posta pelos encantadores.
Quando conseguiram afastar-se, Tomé Cecial falou com dureza ao bacharel. Disse que ambos tinham merecido o castigo: Dom Quixote saía são e rindo, enquanto eles, os supostos homens de juízo, ficavam moídos, envergonhados e obrigados a procurar quem pusesse ordem nas costelas de Sansón. Perguntou qual loucura era maior: a de quem não consegue deixar de ser louco ou a de quem escolhe sê-lo para meter-se em perigo alheio. Sansón respondeu com dor e orgulho. O louco por força continuaria preso a si mesmo; o louco por vontade poderia largar a loucura quando quisesse. Tomé aceitou a distinção e declarou que sua própria loucura voluntária acabava ali. Voltaria para casa, para mulher, filhos e ofícios conhecidos.
Sansón não tinha o mesmo desejo. A primeira intenção de caridade ficara debaixo da queda, e dali se levantava outra coisa: vingança. Jurou que não tornaria à aldeia sem antes encontrar meio de derrubar Dom Quixote, não por zelo de cura, nem por piedade de amigo, mas porque o corpo dolorido pedia reparação. Tomé Cecial tentou lembrá-lo de que haviam entrado naquela história para salvar um homem e terminaram precisando salvar a si mesmos. O bacharel ouviu pouco. As costelas falavam mais alto que qualquer razão. Seguiram até um povoado, onde acharam quem tratasse ossos deslocados e pancadas fundas. Tomé despediu-se ali, deixando Sansón entregue ao curador e ao pensamento fixo de revanche.
Assim ficou plantada a semente de uma derrota futura, embora Dom Quixote nada soubesse disso. Para ele, o Cavaleiro dos Espelhos entrara na lista dos vencidos, Dulcineia ganhara novo defensor e a estrada de Zaragoza se abria com sinal favorável. Para Sancho, a aventura deixara gosto duplo: vitória do amo e suspeita doméstica demais para ser inteiramente magia. Ainda assim, seguiu. O rucio caminhava, Rocinante também, e as perguntas ficavam para trás porque a estrada sempre tem esse poder de empurrar dúvidas adiante. A história deixa Sansón cuidando das costelas e volta aos dois viajantes, que avançavam sem saber que a cura recusada hoje tornaria a procurá-los em outra forma.