Capítulo 105 - A cencerrada dos gatos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 105 de 133
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Capítulo 105 - A cencerrada dos gatos

Capítulo 105 - A cencerrada dos gatos

A noite de Dom Quixote passou entre suspiros, cuidados e a lembrança da música de Altisidora. Ao amanhecer, vestiu as botas de caminho para esconder a desgraça da meia, pôs o gabão de escarlata e tomou a montera de veludo verde com guarnição de prata. Pendurou a faixa com a boa espada, lançou o manto sobre os ombros e enfiou um grande rosário de contas. Caminhou pelo corredor com ar tão composto que parecia homem indo a conselho de guerra. Na antessala achou o duque e a duquesa já informados da serenata, pois Altisidora lhes contara tudo como parte da burla combinada.

Assim que a moça viu Dom Quixote, fingiu desmaio. A amiga Emerência amparou-a no colo e começou a desfazer-lhe o peito do vestido, como quem busca ar para coração ferido. Dom Quixote pediu que à noite pusessem um alaúde em seu quarto, pois pretendia consolar a donzela do melhor modo que conhecia: pela música e por uma desilusão honesta. A duquesa, satisfeita por ver o cavaleiro cair inteiro na rede, prometeu o instrumento. Passaram o dia em conversas, e nesse meio tempo a duquesa despachou um pajem à aldeia de Sancho, levando à mulher dele a carta do governador e o traje verde de caça que Sancho mandara de presente.

Chegada a noite, Dom Quixote recolheu-se. Achou no aposento uma vihuela, afinou-a o quanto pôde, chegou à grade da janela e percebeu movimento no jardim. Entendeu que a família da casa estava ali para ouvi-lo. Depois de limpar a garganta, começou a cantar romance composto por ele mesmo naquele dia. A canção aconselhava donzelas a ocupar mãos e pensamento em trabalhos honestos, costura, renda e agulha, para fugir de ociosidade e amores perigosos. Dizia que amor recém-chegado costuma partir com igual ligeireza, que a alma livre não deve vender-se ao primeiro olhar e que só Dulcineia tinha senhorio legítimo sobre o cavaleiro que cantava.

Altisidora recebeu cada verso como nova ocasião de fingimento. A duquesa escutava, o duque preparava o desfecho e os criados já tinham ordens. Quando Dom Quixote chegou aos últimos acentos, começou de repente uma gritaria de sinos, chocalhos, campainhas e vozes tão forte que o castelo inteiro pareceu tomado por desordem. Ao mesmo tempo despejaram pela janela um saco cheio de gatos, cada um com guizo amarrado ao rabo. Os animais, assustados, correram pelo quarto, saltaram sobre móveis, derrubaram objetos e sopraram como demônios pequenos. Dom Quixote, tomando-os por feiticeiros, desembainhou a espada e começou a golpear sombras, móveis e a própria confusão.

Um dos gatos, mais feroz ou mais apavorado, lançou-se ao rosto do cavaleiro, agarrou-lhe o nariz com unhas e dentes e ficou preso ali como máscara viva. Dom Quixote gritava que o deixassem com o encantador malino para combatê-lo corpo a corpo. O duque, correndo ao quarto, abriu a porta com chave-mestra, e os criados entraram com luzes. Só então arrancaram o gato, que deixou arranhões e mordidas no rosto do pobre cavaleiro. Altisidora veio com panos e água, oferecendo curativos entre lamentos fingidos. Aproveitou para chamá-lo duro e ingrato, dizendo que todos aqueles males provinham de sua crueldade.

Dom Quixote respondeu, mesmo dolorido, que se o encantador-gato desejava alguma prenda, deveria aceitar os guizos, pois não arrancaria dele fidelidade alguma. Altisidora prometeu guardar um dos sinais daquela batalha como memória de amor mal pago. O duque e a duquesa sustentaram espanto e cuidado, embora mal pudessem conter o riso. O cavaleiro ficou cinco dias recolhido, tratando os arranhões e meditando sobre a perseguição dos encantadores. Nesse tempo, Altisidora continuou a queixar-se pelos corredores, o castelo se divertiu com a façanha dos gatos, e Sancho, longe dali, ia descobrindo que governo pode ser mais trabalhoso que aventura.

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