Capítulo 123 - O Cavaleiro da Branca Lua
Capítulo 123 - O Cavaleiro da Branca Lua
A mulher de don Antonio recebeu Ana Félix com agrado, presa tanto à beleza quanto à discrição da morisca cristã, e logo a cidade começou a vir vê-la como se um toque de campana chamasse todos para novidade pública. Dom Quixote, sabendo do plano para tirar don Gregorio de Argel, julgou-o perigoso e pouco digno de sua profissão. Propôs que o levassem a Berberia com armas e cavalo, pois ele libertaria don Gregorio e quantos cristãos cativos encontrasse, como cavaleiro de romances capaz de abrir portas com a lança. Sancho trouxe a questão para o chão: Gaiferos resgatara Melisendra por terra firme, enquanto ali havia mar no meio. Dom Quixote respondeu que para tudo há remédio salvo para a morte, e don Antonio, sorrindo, prometeu recorrer ao braço do cavaleiro se o renegado falhasse.
O renegado partiu dois dias depois num barco leve, com remadores valentes, e as galés seguiram para Levante, deixando pedido ao vice-rei para que avisasse o resultado do resgate. Passados mais alguns dias, Dom Quixote saiu pela praia armado de todas as suas armas, pois dizia que elas eram seus adornos naturais e que seu descanso verdadeiro era pelejar. Viu então aproximar-se outro cavaleiro armado de alto a baixo, trazendo no escudo uma lua resplandecente. O desconhecido anunciou-se como Cavaleiro da Branca Lua e veio contender com ele para provar que sua dama, fosse quem fosse, superava em beleza Dulcineia do Toboso. Se Dom Quixote confessasse isso, pouparia a vida; se pelejasse e fosse vencido, deveria deixar as armas e recolher-se à sua aldeia por um ano, vivendo em paz, sem buscar aventuras.
Dom Quixote ouviu o desafio com espanto e severidade. Respondeu que o Cavaleiro da Branca Lua jamais vira Dulcineia, pois bastaria contemplá-la uma vez para abandonar tal pretensão. Sem chamá-lo mentiroso, disse que ele se enganava no essencial, aceitou as condições e recusou apenas a passagem da fama alheia para a sua, porque ignorava que feitos o outro possuía. Da cidade já haviam percebido o encontro e avisado o vice-rei, que chegou à praia com don Antonio e outros cavaleiros. Perguntou ao desafiante a causa daquela batalha repentina. O da Branca Lua resumiu a pendência como precedência de formosura e repetiu as condições aceitas. Don Antonio, consultado em voz baixa, jurou desconhecer o homem e ignorar se aquilo era burla ou coisa séria.
O vice-rei, incapaz de impedir dois homens tão presos ao próprio intento, afastou-se e entregou-os a Deus. Dom Quixote encomendou-se ao céu e a Dulcineia. Os dois tomaram distância e voltaram os cavalos ao mesmo tempo, sem trombeta nem sinal de guerra. O cavalo da Branca Lua era mais forte e rápido que Rocinante; alcançou Dom Quixote antes do meio da carreira e o atingiu com tão poderoso encontro, levantando a lança para não feri-lo, que cavalo e cavaleiro rolaram no chão. O vencedor aproximou-se, pôs a lança sobre a viseira de Dom Quixote e exigiu que confessasse as condições do desafio. Do chão, aturdido e sem levantar o rosto, Dom Quixote falou como se viesse de uma sepultura: Dulcineia era a mulher mais bela do mundo, e ele o mais desditoso cavaleiro da terra; sua fraqueza não podia lesar aquela verdade.
Pediu que o vencedor apertasse a lança e lhe tirasse a vida, já que lhe tirara a honra. O Cavaleiro da Branca Lua recusou. Declarou viva a fama de Dulcineia e exigiu apenas que Dom Quixote se retirasse para sua terra por um ano, ou pelo tempo mandado, conforme haviam combinado. O vencido respondeu que cumpriria tudo o que não ferisse Dulcineia, como cavaleiro pontual e verdadeiro. Então o vencedor fez cortesia ao vice-rei, voltou as rédeas e entrou na cidade a meio galope. O vice-rei mandou don Antonio segui-lo e descobrir quem era. Na praia, levantaram Dom Quixote, acharam-no pálido e suado; Rocinante mal podia mover-se. Sancho ficou sem palavra, vendo o amo rendido, as armas suspensas por um ano e a glória de tantas promessas apagada de repente. Trouxeram uma cadeira de mãos e levaram Dom Quixote à cidade, com mais peso no ânimo que no corpo.