Capítulo 57 - Os disciplinantes da estrada
Capítulo 57 - Os disciplinantes da estrada
Dom Quixote tomou a dor de Eugênio como chamado de armas. Falou-lhe com gravidade, prometendo que, se as forças e os encantamentos lhe dessem licença, iria ao mosteiro, tiraria Leandra de qualquer prisão contrária à vontade dela e a poria diante de quem tivesse direito justo a recebê-la. O cabreiro olhou aquele homem magro, preso numa jaula sobre uma carreta, com o rosto ferido pelas viagens e a fala cheia de grandezas antigas. Perguntou ao barbeiro quem era tão estranha criatura. O barbeiro, entre riso e solenidade, respondeu que ali ia o famoso Dom Quixote de la Mancha, desfazedor de agravos, sustento de donzelas e terror de gigantes. Eugênio ouviu a explicação e concluiu que aquele cavaleiro tinha a cabeça vazia de senso, embora cheia de palavras.
A ofensa bateu em Dom Quixote como pedrada. Mesmo de dentro da armação, ergueu-se quanto pôde e chamou o cabreiro de vilão ingrato, homem incapaz de reconhecer quem se oferecia para remediar sua desgraça. Havia pão sobre a mesa improvisada da comitiva; o cavaleiro tomou um pedaço e o lançou contra o rosto de Eugênio com mais fúria que pontaria. O cabreiro, pouco disposto a aceitar brincadeira de quem o insultava em público, avançou sobre ele. A mesa virou campo de pancadas, Sancho tentou acudir ao amo, o cura e o cônego apartaram braços, pratos caíram, o vinho se espalhou e todos perderam por instantes a compostura que a conversa literária lhes dera. O riso dos presentes aumentava a confusão, e Sancho, seguro por um criado do cônego, desesperava-se por não conseguir entrar na briga.
A luta só cedeu quando uma trombeta soou ao longe, triste e comprida, vindo de um recosto próximo. Dom Quixote, ainda sob o peso do cabreiro e com o corpo mais moído do que antes, pediu trégua por uma hora, pois aquele som, segundo ele, anunciava aventura mais alta que qualquer pendência de mesa. Eugênio, cansado de bater e apanhar, soltou-o. Todos voltaram os olhos para a estrada e viram descer uma procissão de homens vestidos de branco, com capuzes, velas e disciplinas nas mãos. Vinham em rogativa por causa da seca, conduzindo uma imagem da Virgem coberta de luto até uma ermida do vale. Para o cura e para Sancho, a cena pertencia à devoção comum dos povoados. Para Dom Quixote, que jamais deixava o mundo repousar em seu próprio nome, aqueles homens levavam cativa uma senhora nobre.
Sancho correu a adverti-lo. Disse que aquilo cheirava a igreja, reza e penitência, e que a figura coberta era imagem santa, não princesa roubada por malfeitores. Dom Quixote já tomava o freio de Rocinante e pedia a espada. As palavras do escudeiro chegaram tarde. O cavaleiro montou com esforço, ergueu a voz e anunciou aos presentes que logo se veria para que serviam os cavaleiros andantes no mundo. Foi contra a procissão, parou diante dos carregadores e ordenou que soltassem a senhora enlutada, pois ele nascera para defender mulheres levadas contra a vontade. Os homens da procissão primeiro se espantaram, depois riram. Um dos clérigos pediu que falasse depressa, porque a penitência seguia seu passo e ninguém podia deter a rogativa para ouvir disparates.
A risada foi suficiente para acender a cólera do cavaleiro. Dom Quixote puxou a espada e investiu contra as andas. Um dos homens que sustentavam a imagem largou a carga aos companheiros, tomou o bastão que servia de apoio e recebeu o golpe do cavaleiro. A madeira partiu-se, mas o pedaço restante desceu sobre o ombro de Dom Quixote com força de lavrador. Rocinante parou, o corpo do amo perdeu firmeza, e o cavaleiro caiu ao chão como árvore seca depois de machado. Sancho chegou ofegante e se lançou sobre ele, gritando que tinham matado a flor da cavalaria, o senhor que lhe prometera ilha, honra e governo. O homem da procissão, vendo o caído imóvel, fugiu pelos campos com medo de haver feito morte.
O cura reconheceu outro cura entre os penitentes e explicou rapidamente a desordem. A procissão se recompôs, os capuzes baixaram, as velas seguiram, e a imagem prosseguiu para a ermida com seus cantos. Dom Quixote despertou ao pranto de Sancho e pediu que o colocassem de volta na carreta encantada, pois seu ombro já não permitia governo de sela. Sancho, aliviado por ouvi-lo vivo, aconselhou que voltassem à aldeia e guardassem nova saída para tempo de maior proveito. O cavaleiro aceitou a prudência como quem aceita conselho escrito nas estrelas. O cabreiro despediu-se, os quadrilheiros ficaram pelo caminho, o cônego tomou sua direção e os bois retomaram a marcha. Depois daquela última pancada, a aldeia deixou de parecer destino remoto e começou a pesar sobre todos como porta próxima.