Capítulo 54 - O encantamento da jaula Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 54 de 133
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Capítulo 54 - O encantamento da jaula

Capítulo 54 - O encantamento da jaula

Depois da chegada da Santa Hermandad, todos compreenderam que a venda já não podia sustentar por muito tempo o peso de Dom Quixote. Enquanto suas loucuras pareciam apenas quedas, discursos e pancadas, ainda havia espaço para rir, desviar ou remendar. Mas agora a lei rondava a porta, os quadrilheiros lembravam os galeotes, e qualquer novo gesto do cavaleiro podia transformar a fantasia em processo, prisão ou sangue. O cura decidiu, com tristeza prática, que era hora de levá-lo de volta para casa.

Não bastava pedir. Também não bastava mandar. Dom Quixote obedeceria a uma princesa imaginada, enfrentaria quadrilheiros por honra e recusaria qualquer ordem comum como indignidade. Era preciso cercá-lo por dentro, não por fora. O barbeiro, companheiro antigo do cura e já acostumado a representar papéis estranhos, concordou em preparar um encantamento. A venda forneceria a cena; os amigos, as vozes; a jaula, o corpo da mentira.

Procuraram uma carreta que pudesse servir ao transporte e uma espécie de gaiola ou armação forte o suficiente para conter o cavaleiro sem feri-lo. O vendeiro resmungou, porque cada plano naquela casa parecia transformar seus pertences em instrumentos de confusão. Fernando prometeu compensar despesas. O ouvidor, embora desconfortável com o teatro, reconheceu que a alternativa era pior. Doroteia compreendeu antes dos outros a delicadeza cruel da solução: salvar Dom Quixote exigia enganá-lo com a mesma matéria que o perdera.

Sancho recebeu a notícia como quem vê chover dentro de casa. Encantar seu amo parecia desrespeito, mas deixá-lo cair nas mãos da Santa Hermandad parecia desastre. Perguntou se o encantamento teria prazo, se a jaula permitiria conversa, se Rocinante seguiria perto e se escudeiros de cavaleiros encantados conservavam direito a ilhas. O cura respondeu às duas primeiras coisas com paciência, à terceira com promessa e à quarta com silêncio. Sancho entendeu o silêncio como mau sinal.

Combinaram a hora para quando Dom Quixote estivesse cansado e menos disposto a vigiar o mundo. O cavaleiro, porém, ainda falava de Micomicona, de gigantes e de justiça. Doroteia, despedindo-se pouco a pouco de seu papel de princesa, pediu-lhe que descansasse para a jornada futura. Ele aceitou por respeito a ela. Ali estava a ironia: a mesma ficção que o tirara de Serra Morena agora ajudava a colocá-lo no caminho de volta, só que dentro de outra fantasia mais estreita.

Quando a noite adensou os cantos da venda, as figuras disfarçadas se moveram. O barbeiro cobriu o rosto. Outros falaram em vozes graves, como ministros de algum poder invisível. Diziam que o valoroso Dom Quixote seria levado encantado até cumprir destino maior; que sua prisão significava suspensão misteriosa, não derrota; que Dulcineia, Micomicona e todas as damas aflitas deviam esperar o tempo marcado pelos sábios. As palavras eram ocas para os sensatos, mas soavam altas o bastante para alcançar o coração do cavaleiro.

Dom Quixote despertou cercado de sombras e presságios. Tentou erguer-se, mas braços prudentes o conduziram. Não houve violência declarada: houve cerimônia. Ele perguntou que força ousava tocar seu corpo. Uma voz respondeu que eram encantadores poderosos, inimigos e ao mesmo tempo instrumentos do destino, e que nenhum braço humano poderia romper aquele feitiço. Dom Quixote, em vez de gritar como preso comum, ficou solene. Ser encantado era, afinal, prova de grandeza. Só heróis dignos de livros recebiam prisões tão extraordinárias.

A jaula esperava na carreta. Quando a viu, Sancho quase rompeu o acordo. Aquilo lhe pareceu pobre demais para encantamento e duro demais para remédio. Aproximou-se do cura e cochichou que sábios encantadores, se fossem realmente sábios, usariam cama melhor. O cura respondeu que encantamentos costumavam ser austeros. Sancho não gostou da palavra, mas ficou. Tinha medo de trair o amo e medo ainda maior de salvá-lo da única maneira que podia.

Dom Quixote foi colocado dentro da jaula com respeito teatral. A espada, a bacia-elmo e outros sinais de sua dignidade foram arrumados de modo que ele não se sentisse reduzido a criminoso. Ainda assim, quando as grades se fecharam, algo na venda mudou. Até os que riam de suas loucuras sentiram um peso. A fantasia, vista de fora, era truque; vista naquele corpo magro e orgulhoso, parecia dor.

Sancho aproximou-se das grades. Chamou o amo em voz baixa e perguntou se estava ferido. Dom Quixote respondeu que não; estava encantado. Disse que aquilo confirmava a perseguição dos sábios contrários à sua glória e pediu ao escudeiro fidelidade. Sancho jurou que não o abandonaria. Também perguntou, com prudência, se cavaleiros encantados ainda podiam recompensar serviços depois de desencantados. Dom Quixote garantiu que sim. Essa resposta devolveu a Sancho alguma cor.

A venda assistia à partida como quem vê encerrar-se uma peça longa demais. O barbeiro da bacia já não discutia. O vendeiro queria apenas que aquela companhia deixasse alguma paz atrás. Doroteia, Fernando, Lucinda e Cardenio observavam com gratidão triste: se Dom Quixote os havia ajudado por delírio, agora eram eles que aceitavam um delírio para ajudá-lo. O ouvidor via ali uma solução imperfeita, dessas que a vida impõe quando a lei não alcança a complexidade de uma alma quebrada.

Antes que a carreta se movesse, o cura cuidou de acalmar os quadrilheiros. Dom Quixote seria levado, não fugiria, e ficaria sob guarda de gente conhecida. A Santa Hermandad, satisfeita por ver o homem contido, aceitou a solução. Fernando reforçou sua palavra. O caso da venda, ao menos por ora, deixava de ferver. Ainda restavam contas, promessas, jovens enamorados, barbeiros compensados e despedidas, mas o centro da tempestade já estava preso em madeira.

Quando a carreta enfim começou a sair, Dom Quixote ergueu a voz e falou como cavaleiro em exílio encantado. Pediu que todos guardassem memória de sua fama, que as damas não desanimassem, que os injustiçados esperassem seu retorno. Sancho caminhou ao lado, dividido entre pena e esperança. Atrás, a venda diminuía no pó da estrada. Adiante, ainda havia caminhos, debates e a lenta volta para casa. Mas a aventura mudara de forma: a perseguição se invertera, e o mundo, com cuidado e mentira, tentava trazer Dom Quixote de volta.

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