Capítulo 119 - Roque Guinart
Capítulo 119 - Roque Guinart
Dom Quixote saiu da venda decidido a ir para Barcelona sem tocar em Zaragoza, movido pelo desejo de desmentir o autor que usara seu nome. Durante seis dias nada lhe aconteceu que merecesse escrita, até que uma noite o alcançou fora do caminho, entre encinas e alcornoques. Sancho, que havia merendado, dormiu sem custo ao pé de uma árvore. Dom Quixote, acordado por pensamentos de Dulcineia, da cova de Montesinos e da ordem de Merlín, concluiu que podia resolver à força o que o escudeiro adiava por vontade. Tomou as rédeas de Rocinante, aproximou-se de Sancho e começou a soltá-lo para aplicar-lhe parte dos açoites prometidos. Sancho despertou, agarrou o amo, derrubou-o de costas e pôs-lhe o joelho no peito, exigindo juramento de que ninguém tocaria em suas carnes sem consentimento.
Dom Quixote prometeu deixá-lo livre, e Sancho afastou-se para dormir em outra árvore. Ao apoiar-se, sentiu pés humanos acima da cabeça; mudou de lugar e achou outros. Chamou pelo amo, tremendo. Dom Quixote apalpou aqueles corpos e entendeu que eram bandoleiros enforcados pela justiça, sinal de que Barcelona já ficava perto. Com a manhã, viram os mortos pendurados como frutos sombrios, e logo os cercaram mais de quarenta homens vivos, armados e falando catalão. Os bandoleiros começaram a registrar o rucio e as alforjas de Sancho, que escapou por pouco de perder a bolsa escondida junto ao corpo. Então chegou o capitão, homem moreno, robusto, armado com pistolas e autoridade imediata. Mandou devolver o que tiravam, apresentou-se como Roque Guinart e disse a Dom Quixote que suas mãos eram mais compassivas que cruéis.
Dom Quixote respondeu que sua tristeza não vinha de cair em poder de Roque, cuja fama conhecia, e sim de haver sido surpreendido sem freio, escudo e lança prontos. Se o tivessem achado montado, afirmou, não seria fácil rendê-lo. Roque percebeu que havia ali mais loucura que valentia, embora a mistura lhe parecesse curiosa. Antes que a conversa avançasse, chegou a cavalo uma jovem vestida de verde, com armas ao lado e aflição no rosto. Chamava-se Claudia Jerónima, filha de amigo de Roque, e contou que Vicente Torrellas lhe prometera casamento em segredo. Ao saber que ele iria casar com outra, vestira-se de homem, alcançara-o na estrada e disparara contra ele, deixando-o ferido ou morto entre seus criados. Pedia passagem para França e proteção para o pai contra a vingança da família rival.
Dom Quixote ofereceu-se imediatamente para defender a moça e obrigar o ferido a cumprir a palavra, e Sancho confirmou a competência do amo como casamenteiro, lembrando o caso recente de Tosilos. Roque, porém, cuidou do fato real. Foi com Claudia até onde Vicente caíra, alcançou os criados que o levavam e encontrou o rapaz ainda vivo. Vicente negou a traição: nunca quisera casar com Leonora, e uma notícia falsa levara Claudia ao ciúme e ao disparo. Para provar sua palavra, tomou-lhe a mão como esposo antes de morrer. Claudia desmaiou sobre ele; ao voltar, achou o marido sem vida e entregou-se a um pranto que moveu até os olhos de Roque, pouco acostumados a lágrimas. Recusou companhia e decidiu recolher-se a um mosteiro onde uma tia era abadessa, deixando para trás o amor que sua própria pressa destruíra.
Roque voltou aos seus e encontrou Dom Quixote pregando aos bandoleiros que abandonassem vida tão perigosa para a alma e para o corpo. Sancho recebeu de volta quase tudo, reclamando apenas três toucas que estimava como cidades. Roque ordenou a restituição e, em seguida, mandou reunir roupas, joias e dinheiro roubados desde a última partilha. Fez as contas com exatidão e distribuiu entre os homens de maneira tão justa que Sancho comentou ser a justiça necessária até entre ladrões. Um bandoleiro quase lhe quebrou a cabeça por isso, e o escudeiro decidiu que o silêncio era melhor companhia naquela gente. Depois trouxeram novos viajantes: dois capitães, dois peregrinos e um coche com doña Guiomar de Quiñones, sua filha e criadas. Roque cobrou dos ricos apenas parte do dinheiro, poupou os peregrinos e ainda mandou dar algum socorro a eles e a Sancho.
A liberalidade do capitão provocou murmúrio entre os seus. Um homem disse em língua misturada que Roque servia mais para frade que para bandoleiro e que deveria ser generoso com a própria fazenda, não com a alheia. Roque ouviu, sacou a espada e abriu-lhe a cabeça, ensinando com sangue o preço da língua solta. Depois escreveu uma carta a um amigo de Barcelona, avisando que levava consigo o famoso Dom Quixote de la Mancha, homem de loucuras e discrições capazes de divertir toda a cidade. Mandou dizer que, dentro de quatro dias, dia de São João, o cavaleiro seria posto na praia, armado sobre Rocinante, com Sancho montado no rucio. Um de seus homens trocou a roupa de bandoleiro por traje de lavrador e levou a notícia. Assim a fama de Dom Quixote chegou a Barcelona antes de seu corpo.