Capítulo 72 - A conversa dos escudeiros Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 72 de 133
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Capítulo 72 - A conversa dos escudeiros

Capítulo 72 - A conversa dos escudeiros

Enquanto Dom Quixote e o Cavaleiro do Bosque ficavam entregues a damas, tristezas e façanhas, Sancho Pança afastou-se com o escudeiro desconhecido para falar de matéria mais próxima do estômago. O outro começou lamentando a vida daqueles que servem cavaleiros andantes: frio, calor, vigílias, sustos, fome e a obrigação de correr atrás de glória alheia como quem segue uma mula sem cabresto. Sancho concordou logo. Disse que os escudeiros comem o pão no suor do rosto e também no gelo do corpo, quando há pão; muitas vezes passam dia e noite alimentados apenas por vento, medo e promessa de recompensa futura.

O escudeiro do Bosque respondeu que toda miséria se aguenta melhor quando vem acompanhada de prêmio. Se o cavaleiro servido não for inteiramente infeliz, cedo ou tarde dará ao criado uma ilha, um condado ou algum governo de boa aparência. Sancho ganhou brilho nos olhos. Contou que seu amo lhe prometera ilha muitas vezes, e que ele se contentaria com governo honrado, desde que viesse antes de sua velhice terminar. O outro disse que ficaria satisfeito com um canonicato, pois seu senhor talvez tivesse meios de dar recompensa eclesiástica. Sancho achou estranho. Seu amo era leigo por todos os lados, e, embora certas pessoas já tivessem sugerido que virasse arcebispo, preferira mirar império, coisa mais ajustada ao gosto de Sancho.

O companheiro aconselhou retirada. Governos, dizia, carregam preocupação, conta, inveja e responsabilidade; alguns são pobres, outros tortos, outros cheios de tristeza. Melhor seria voltar às aldeias, criar filhos, caçar, pescar e envelhecer sem cavaleiro nenhum mandando buscar perigo em todo canto. Sancho reconheceu que tinha jumento melhor que muito cavalo, galgos poderia arranjar de vizinhos, e pesca nunca faltava a quem possuísse vara e paciência. Mesmo assim, a ilha ficava diante dele como saco de moedas pendurado no pensamento. Já vira cem escudos em Serra Morena e desde então o diabo lhe punha diante dos olhos talegos maiores, rendas, juros, casa farta e respeito de gente que hoje mal o cumprimentava.

Falaram dos filhos. O escudeiro do Bosque disse ter três pequenos, preciosos para seus olhos. Sancho contou que tinha dois, e que a filha, Mari Sancha, crescia forte, fresca e alta, destinada talvez a condessa se Deus e Dom Quixote ajudassem. O outro, usando expressão grosseira que no uso popular podia valer elogio, louvou o vigor da moça. Sancho fechou o rosto, porque, quando se tratava de Teresa e dos filhos, sua paciência perdia a sela. O companheiro explicou que certas palavras nascem feias e servem para louvar quando a coisa louvada excede a medida comum. Sancho aceitou a lição com cuidado e disse que, sendo assim, toda a sua casa merecia abundância desses louvores, pois mulher, filho e filha faziam coisas dignas de espanto.

A conversa voltou aos amos. O escudeiro do Bosque disse que o seu senhor andava metido em cuidados alheios para curar loucura de outro cavaleiro, e que isso talvez lhe saísse caro. Perguntou se Dom Quixote era também enamorado. Sancho respondeu que sim, de Dulcineia do Toboso, senhora que a ele próprio se mostrara de modo complicado demais para explicar em poucas palavras. Defendeu o amo com sinceridade: tinha mais loucura que malícia, alma grande, vontade limpa e tal facilidade para crer que uma criança podia fazê-lo aceitar noite em pleno meio-dia. Por isso o estimava como coisa de dentro do peito, e não conseguia abandoná-lo, embora cada aventura parecesse inventada contra seus ossos.

O outro escudeiro trouxe então o melhor argumento contra a miséria: uma bota de vinho e uma empanada enorme, guardadas como tesouro de quem conhece a estrada. Sancho comeu sem pedir segunda autorização. Chamou o companheiro de escudeiro legítimo, magnífico e corrente, pois quem serve armas deve carregar provisão melhor que queijo duro, alfarrobas, avelãs e nozes. O vinho passou de mão em mão. Sancho ergueu a bota, olhou as estrelas enquanto bebia e depois declarou que aquela bebida tinha fé, corpo e família. Descobriu que vinha de Ciudad Real, e o outro admirou o acerto. Sancho explicou que descendia de grandes provadores: dois parentes seus haviam sentido, num vinho limpo ao parecer de todos, gosto de ferro e de couro; meses depois, ao esvaziarem a cuba, encontraram dentro dela uma chave presa a correia de cordobão.

O escudeiro do Bosque riu e propôs outra vez a retirada para as aldeias, onde haveria pão conhecido, vinho seguro e menos necessidade de provar valentia de terceiros. Sancho disse que serviria Dom Quixote até Zaragoza; depois, cada um veria que ajuste cabia à própria vida. Beberam mais do que planejavam. Comeram mais do que convinha à prudência. A noite fechou em torno dos dois, e o sono, que costuma ter mais autoridade que conselhos, calou-lhes as línguas. Ficaram adormecidos com a bota quase vazia entre as mãos e pedaços de comida ainda por acabar, enquanto seus amos, a pouca distância, preparavam com palavras corteses uma disputa que logo pediria lanças.

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