Primeira parte - Capítulo I Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 2 de 271
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Primeira parte - Capítulo I

Em que se declara quem foram os primeiros descobridores da província do Brasil, e como está arrumada.

A província do Brasil está situada além da linha equinocial da

parte do sul, debaixo da qual começa ela a correr junto do rio que

se diz das Amazonas, onde se principia o norte da linha de demarcação e repartição; e vai correndo esta linha pelo sertão desta

província até 45 graus, pouco mais ou menos.

Esta terra se descobriu aos 25 dias do mês de abril de 1500 anos

por Pedro Álvares Cabral, que neste tempo ia por capitão-mor

para a Índia por mandado de El-Rei D. Manuel, em cujo nome

tomou posse desta província, onde agora é a capitania de Porto

Seguro, no lugar onde já esteve a vila de Santa Cruz, que assim

se chamou por se aqui arvorar uma muito grande, por mando de

Pedro Álvares Cabral, ao pé da qual mandou dizer, em seu dia, a

3 de maio, uma solene missa, com muita festa, pelo qual respeito

se chama a vila do mesmo nome, e a província muitos anos foi

nomeada por de Santa Cruz e de muitos Nova Lusitânia; e para

solenidade desta posse plantou este capitão no mesmo lugar um

padrão com as armas de Portugal, dos que trazia para o descobrimento da Índia para onde levava sua derrota.

A estas partes foi depois mandado por Sua Alteza Gonçalo

Coelho com três caravelas de armada, para que descobrisse esta

costa, com as quais andou por elas muitos meses buscando-lhe

os portos e rios, em muitos dos quais entrou e assentou marcos

dos que para este descobrimento levava, no que passou grandes

trabalhos pela pouca experiência e informação que se até então

tinha de como a costa corria, e do curso dos ventos com que se

navegava. E recolhendo-se Gonçalo Coelho com perda de dois

navios, com as informações que pôde alcançar, as veio dar a El-

Rei D. João, o III, que já neste tempo reinava, o qual logo ordenou

outra armada de caravelas que mandou a estas conquistas, a qual

entregou a Cristóvão Jacques, fidalgo da sua casa que nela foi por

capitão-mor, o qual foi continuando no descobrimento desta costa e trabalhou um bom pedaço sobre aclarar a navegação dela, e

plantou em muitas partes padrões que para isso levava.

Contestando com a obrigação do seu regimento, e andando

correndo a costa, foi dar com a boca da Bahia, a que pôs o nome

de Todos os Santos, pela qual entrou dentro, e andou especulando

por ela todos os seus recôncavos, em um dos quais – a que chamam o Rio do Paraguaçu – achou duas naus francesas que estavam ancoradas resgatando com o gentio, com as quais se pôs às

bombardas, e as meteu no fundo, com o que se satisfez e se recolheu para o Reino, onde deu suas informações a Sua Alteza, que,

com elas, e com as primeiras e outras que lhe tinha dado Pedro

Lopes de Sousa, que por esta costa também tinha andado com

outra armada, ordenou de fazer povoar essa província, e repartir a

terra dela por capitães e pessoas que se ofereceram a meter nisso

todo o cabedal de suas fazendas, do que faremos particular menção em seu lugar.

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