Segunda parte - Capítulo I
Armada de Tomé de Sousa.
A
trás fica dito, passando pela Bahia de Todos os Santos,
que se não sofria naquele lugar tratar-se das grandezas
dela, pois não cabiam ali, o que se faria ao diante mui largamente, logo depois que se acabasse de correr a costa, com que temos
já concluído. Da qual podemos agora tratar e explicar o que se
dela não sabe para que venham à notícia de todos os ocultos desta
ilustre terra, por cujos merecimentos deve de ser mais estimada e
reverenciada do que agora é, ao que queremos satisfazer com singelo estilo, pois o não temos grave, mas fundado tudo na verdade.
Como El-Rei D. João III de Portugal soube da morte de
Francisco Pereira Coutinho, sabendo já das grandes partes da
Bahia, da fertilidade da terra, bons ares, maravilhosas águas e da
bondade dos mantimentos dela, ordenou de a tomar à sua conta
para a fazer povoar, como meio e coração de toda esta costa, e ajudar e socorrer todas as mais capitanias e povoações dela como a
membros seus; e pondo Sua Alteza em efeito esta determinação
tão acertada, mandou fazer prestes uma armada e provê-la de
todo o necessário para esta empresa, na qual mandou embarcar
Tomé de Sousa do seu conselho e o elegeu para edificar esta nova
cidade, de que o fez capitão e governador-geral de todo o Estado
do Brasil; ao qual deu grande alçada e poderes em seu regimento,
com que quebrou as doações aos capitães proprietários, por terem
demasiada alçada, assim no crime como no cível; de que eles se
agravaram à Sua Alteza, que no caso os não proveu, entendendo
convir a si e a seu serviço. E como a dita armada esteve prestes,
partiu Tomé de Sousa do porto de Lisboa aos dois dias de fevereiro
de 1549 anos; e levando próspero vento chegou à Bahia de Todos
os Santos, para onde levava sua derrota, aos vinte e nove dias de
março do dito ano, e desembarcou no porto de Vila Velha, povoação que Francisco Pereira edificou, onde pôs mil homens, convém
a saber: seiscentos soldados e quatrocentos degradados e alguns
moradores casados, que consigo levou, e outros criados d’El-Rei,
que iam providos de cargos, que pelo tempo em diante serviram.