Segunda parte - Capítulo CXLV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 220 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXLV

Que trata do marisco que se cria na água doce.

Assim como a natureza criou tanta diversidade de mariscos na

água salgada, fez o mesmo nos rios e lagoas da água doce, como se

verá pelos mexilhões que se criam nas pedras destes rios e no fundo das lagoas, que são da feição e tamanho dos do mar, os quais

não são tão gostosos por serem doces.

Também se criam nas pedras destes rios caramujos maiores

que os do mar e compridos, a que os índios chamam sapicaretá.

No fundo das lagoas, nas lamas delas, se criam amêijoas redondas que têm grande miolo, a que os índios chamam como as do

mar, as quais são, pelo lugar onde nascem, muito insossas.

Mais pelo sertão se criam, nos rios grandes, muitos mexilhões

de palmo de comprido e quatro dedos de largo, que são pela banda

de dentro da cor e lustro da madrepérola, que servem de colheres

aos índios, os quais têm grandes miolos; por serem de água doce

não são mui gostosos como os do mar.

Também se criam nestes rios muitos e mui diversos camarões,

dos quais diremos o que foi possível chegar à nossa notícia; começando primeiro dos mais gerais, que os índios chamam poti,

que são muitos, do tamanho dos grandes de Lisboa, mas mais

grossos, e têm as barbas curtas, os quais se criam entre as pedras

das ribeiras e entre raízes das árvores, que vizinham com a água,

e em quaisquer ervas que se criam na água; de que os índios se

aproveitam tomando-os às mãos; e são muito saborosos.

Há outra casta de camarões, a que os índios chamam aratus,

que são da mesma maneira dos primeiros, mas mais pretos na cor,

e têm a casca mais dura, que se criam e tomam da maneira dos de

cima, os quais cozidos são muito bons.

Nestas ribeiras se criam outros camarões, a que os índios chamam araturé, que têm pequeno corpo e duas bocas como lacraus

e a cabeça de cada um é tamanha como o corpo, os quais se criam

em pedras no côncavo delas, e da terra das ribeiras, que são muito

gostosos e tomam-se às mãos.

Potiuaçu são uns camarões que se criam nas cavidades das ribeiras, e têm tamanho corpo como os lagostins, e o pescoço da

mesma maneira; têm a casca nédia e as pernas curtas, os quais

criam corais em certo tempo, e em outro têm o casco gordo como

lagostas, que se também tomam às mãos, e são muito saborosos; e

estes e os mais não são nada carregados.

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