Segunda parte - Capítulo LXXVII
Que trata de algumas folhas proveitosas que se criam no mato.
Caité é uma folha que se dá em terra boa e úmida, que é da
feição das folhas das alfaces estendidas, mas de quatro e cinco palmos de comprido, e são muito tesas; as quais nascem em touças
muito juntas, e têm o pé de quatro e cinco palmos de comprido,
e não fazem árvore. Servem estas folhas aos índios para fazerem
delas uns vasos, em que metem a farinha, quando vão à guerra, ou
algum outro caminho, onde a farinha vai de feição que ainda que
chova muito não lhe entra água dentro.
Capara é outra folha, que nasce como a de cima, mas em cada
pé estão pegadas quatro folhas como as atrás, pegadas umas nas
outras; com estas folhas arma o gentio numas varas uma feição
como esteira muito tecida, e fica cada esteira de trinta palmos
de comprimento, e três de largo, e assentam-nas sobre o emadeiramento das casas, com o que ficam muito bem cobertas; e dura
uma cobertura destas sete, oito anos e mais.
Tocum é uma erva cujas folhas são como de cana-do-reino,
mas mais curtas e brandas; a vara onde se criam é cheia de espinhos pretos, e limpa deles fica como roca-da-índia. Estas folhas
quebram os índios a mão, e tiram dela o mais fino linho do mundo, que parece seda, de que fazem linhas de pescar, torcidas a mão,
e são tão rijas que não quebram com peixe nenhum. Este tocum,
ou seda que dele sai, é pontualmente do toque da erva-da-índia, e
assim o parece; do qual se farão obras mui delicadas, se quiserem.
E porque se não pode aqui escrever a infinidade das árvores e
ervas que há pelos matos e campos da Bahia, nem as notáveis qualidades e virtudes que têm, achamos que bastava para o propósito
deste compêndio dizer o que se contém em seu título; mas há-se
de notar que aos arvoredos desta província lhe não cai nunca a
folha, e em todo o ano estão verdes e formosos.