Segunda parte - Capítulo LII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 127 de 271
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Segunda parte - Capítulo LII

Em que se diz de algumas árvores de fruto que se dão na vizinhança

do mar da Bahia.

Na vizinhança do mar da Bahia se dão umas árvores nas

campinas e terras fracas, que se chamam mangabeiras, que são

do tamanho de pessegueiros. Têm os troncos delgados, e a folha

miúda, e a flor como a do marmeleiro; o fruto é amarelo corado

de vermelho, como pêssegos calvos, ao qual chamam mangabas,

que são tamanhas como ameixas e outras maiores, as quais em

verdes são todas cheias de leite, e colhem-se inchadas para amadurecerem em casa, o que fazem de um dia para o outro, porque

se amadurecem na árvore caem no chão. Esta fruta se come toda

sem deitar nada fora como figos, cuja casca é tão delgada que se

lhe pela se as enxovalham, a qual cheira muito bem e tem suave

sabor, é de boa digestão e faz bom estômago, ainda que comam

muitas; cuja natureza é fria, pelo que é muito boa para os doentes

de febres por ser muito leve. Quando estas mangabas não estão

bem maduras, travam na boca como as sorvas verdes em Portugal,

e quando estão inchadas são boas para conserva de açúcar, que é

muito medicinal e gostosa.

Ingá é árvore desafeiçoada que se não dá senão em terra boa,

de cuja lenha se faz boa decoada para os engenhos. E dá uma fruta

da feição das alfarrobas da Espanha, e tem dentro umas pevides

como as das alfarrobas, e não se lhe come senão um doce que tem

em derredor das pevides, que é muito saboroso.

Cajá é uma árvore comprida, com copa como pinheiro; tem

a casca grossa e áspera, e se a picam deita um óleo branco como

leite em fio, que é muito pegajoso. A madeira é muito mole e serve

para fazer decoada para os engenhos; dá flor branca como a de

macieira, e o fruto é amarelo do tamanho das ameixas, tem grande caroço e pouco que comer, a casca é como a das ameixas. Esta

fruta arregoa, se lhe chove, como é madura, a qual cai com o vento

no chão, e cheiram muito bem o fruto e as flores, que são brancas

e formosas; o sabor é precioso, com ponta de azedo, cuja natureza

é fria e sadia; dão esta fruta aos doentes de febres, por ser fria e

apetitosa, e chama-se como a árvore, que se dá ao longo do mar.

Bacuripari é outra árvore de honesta grandura, que se dá perto

do mar, e quando a cortam corre-lhe um óleo grosso de entre a

madeira e a casca, muito amarelo e pegajoso como visco. Dá esta

árvore um fruto tamanho como fruta nova, que é amarelo e cheira muito bem; e tem a casca grossa como laranja, a qual se lhe tira

muito bem, e tem dentro dois caroços juntos, sobre os quais tem o

que se lhe come, que é de maravilhoso sabor.

Piqui é uma árvore real, de cuja madeira se dirá adiante, a qual

árvore dá frutas como castanhas, cuja casca é parda e tesa e, tirada,

ficam umas castanhas alvíssimas, que sabem como pinhões crus e

cada árvore dá disto muito.

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