Segunda parte - Capítulo CLXXXVI
Em que se declaram alguns costumes dos tapuias destas partes.
Estes tapuias que vivem nesta comarca são muito músicos, e
cantam pela maneira dos primeiros; trazem os beiços debaixo furados, e neles umas pedras verdes roliças e compridas, que lavram
devagar, roçando-as com outras pedras tanto até que as aperfeiçoam à sua vontade.
Não pescam estes índios nos rios à linha, porque não têm anzóis; mas, para matarem peixe, colhem uns ramos de umas ervas
como vides, mas mui compridos e brandos, e tecem-nos como
rede, os quais deitam no rio, e tapam-no de uma parte à outra; e
uns têm mão nesta rede e outros batem a água em cima, de onde
o peixe foge e vem-se descendo até dar nela, onde se ajunta; e tomam às mãos o pequeno peixe, e o grande matam às flechadas,
sem errarem um.
Costumam estes tapuias, para fazerem sal, queimarem uma
serra de salitre, que está entre eles, de onde tomam aquela cinza;
e a terra queimada, lançam-na na água do rio em vasilhas, a qual
fica logo salgada, e põem-na ao fogo, onde a cozem e ferve tanto
até que se coalha, e fica feito o sal em um pão; e com este sal temperam seus manjares; mas o salitre torna logo a crescer na serra
para cima, mas não é tão alvo como o que não foi queimado.
Entre estes tapuias há outros mais chegados ao Rio de São
Francisco, que estão com eles desavindos, que são mais agrestes
e não vivem em casas, e fazem sua vivenda em furnas onde se
recolhem; e têm uma destas serras mui áspera onde fazem sua
habitação, os quais têm os mesmos costumes que os de cima.
Corre esta corda dos tapuias toda esta terra do Brasil pelas
cabeceiras do outro gentio, e há entre eles diferentes castas, com
mui diferentes costumes, e são contrários uns dos outros; entre
os quais há grandes discórdias, por onde se fazem guerra muitas
vezes e se matam sem nenhuma piedade.
Daqui por diante se declara o grande cômodo que a Bahia tem
para se fortificar, e os metais que se nela dão.
Não parece despropósito arrumar à sombra do que está dito
da Bahia de Todos os Santos, os grandes aparelhos e cômodos que
tem para se fortificar, como convém ao serviço de El-Rei Nosso
Senhor e ao bem da terra, para se poder resistir a quem a quiser
ofender; o que começamos a declarar pelo capítulo que se segue