Segunda parte - Capítulo CLXXXI
Que trata da vida e costumes dos amoipiras.
Têm os amoipiras a mesma linguagem dos tupinambás; e a
diferença que têm é em alguns nomes próprios, que no mais entendem-se muito bem; e têm os mesmos costumes e gentilidades;
mas são atraiçoados e de nenhuma fé, nem verdade.
Na terra onde este gentio vive, estão mui faltos de ferramentas,
por não terem comércio com os portugueses; e apertados da necessidade cortam as árvores com umas ferramentas de pedra, que
para isso fazem; com o que, ainda que com muito trabalho, roçam
o mato para fazerem suas roças; do que também se aproveitava
antigamente todo o outro gentio, antes que comunicasse com
gente branca.
E para plantarem na terra a sua mandioca e legumes, cavam
nela com uns paus tostados agudos, que lhes servem de enxadas.
Os quais amoipiras trazem o cabelo da cabeça copado e aparado
ao longo das orelhas, e as mulheres trazem os cabelos compridos
como os tupinambás. Pesca este gentio com uns espinhos tortos
que lhe servem de anzóis, com que matam muito peixe, e a flecha,
para o que são mui certeiros, e para matarem muita caça.
Trazem os amoipiras os beiços furados e pedras neles como os
tupinambás; pintam-se de jenipapo, e enfeitam-se como eles; e
usam na guerra tambores que fazem de um só pau, que cavam por
dentro com fogo tanto até que ficam mui delgados, os quais toam
muito bem; na mesma guerra usam de trombetas que fazem de
uns búzios grandes furados, ou da cana da perna das alimárias que
matam, a qual lavram e engastam num pau. Em tudo o mais seguem os costumes dos tupinambás, assim na guerra como na paz,
dos quais fica dito largamente no seu título. Estes amoipiras têm
por vizinhos no sertão detrás de si outro gentio, a que chamam
ubirajaras, com quem têm guerra ordinariamente, e se matam e
comem uns aos outros com muita crueldade, sem perdoarem as
vidas, quando se cativam.