Segunda parte - Capítulo XCII
Que trata das vespas e moscas.
Criam-se na Bahia muitas vespas, que mordem muito; em especial umas, a que chamam os índios teringoá, que se criam em
ramos de árvores poucas juntas, e cobrem-se com uma capa que
parece teia de aranha, de onde fazem seu ofício em sentindo gente.
Amisagoa é outra casta de vespas, que são à maneira de moscas,
que se criam em um ninho, que fazem nas paredes, e nas barreiras
da terra, tamanhos como uma castanha, com um olho no meio,
por onde entram, o qual ninho é de barro, e elas mordem a quem
lhes vai bulir nele.
E porque as moscas se não queixem, convém que digamos de
sua pouca virtude; e comecemos nas que se chamam mutuca, que
são as moscas gerais e enfadonhas que há na Espanha; as quais
adivinham a chuva, começando a morder onde chegam, de maneira que, se se sente sua picada, é que há boa novidade.
Há outra casta de moscas, a que os índios chamam muruanha
que são mais miúdas que as de cima, e azuladas; estas seguem
sempre os cães e comem-lhes as orelhas; e se tocam em chaga ou
sangue, logo lançam varejas.
Merus são outras moscas grandes e azuladas que mordem
muito onde chegam, tanto que por cima de rede passam o gibão
a quem está lançado nela, e logo fazem arrebentar o sangue pela
mordedura; aconteceu muitas vezes porem elas varejas a homens
que estavam dormindo, nas orelhas, nas ventas e no céu da boca, e
lavrarem de feição por dentro as varejas, sem se saber o que eram,
que morreram alguns disso.
Também há outras como as de cavalo, mas menores e muito
negras, que também mordem onde chegam.