Segunda parte - Capítulo CXC
Em que se apontam os quais aparelhos que há para se fazerem estas
armadas.
Parecerá impossível achar-se na Bahia aparelho de estopa para
se calafetarem as naus, galeões e galés que se podem fazer nela,
para o que tem facilíssimo remédio; porque há nos matos desta
província infinidade de árvores que dão embira, como temos
dito, quando falamos da propriedade delas, a qual embira lhe sai
da casca que é tão grossa como um dedo; quando está pisada é
muito branda, e desta embira se calafetam as naus que se fazem
no Brasil, e todas as embarcações; de que há tanta quantidade
como já dissemos atrás, a qual para debaixo da água é muito
melhor que estopa, porque não apodrece tanto, e incha muito na
água, e as costuras que se calafetam com a embira ficam muito
mais fixas do que as que se calafetam com estopa, do que há muita
quantidade na terra. E se cuidar quem ler estes apontamentos que
não haverá oficiais que calafetem estas embarcações, afirmo-lhe
que há estantes na Bahia mais de duas dúzias, e achar-se-ão nos
navios, que sempre estão no porto, dez ou doze, que são calafates
das mesmas naus, e há muitos escravos, também, na terra, que são
calafates por si sós, e à sombra de quem, o sabem bem fazer.
Breu para se brearem estas embarcações não temos na terra,
mas é por falta de se não dar remédio a isto; porque ao longo do
mar, em terras baixas de areia, é tudo povoado de umas árvores
que se chamam camaçari, que entre a casca e o âmago lançam
infinidade de resina branca, grossa como terebentina de Beta, a
qual é tão pegajosa que se não tira das mãos senão com azeite
quente, a qual, se houver quem lhe saiba fazer algum cozimento,
será muito boa para se brearem com ela os navios, e far-se-á tanta
quantidade que poderão carregar naus desta resina; e porque se
não podem brear as naus sem se misturar com a resina graxa, na
Bahia se faz muita de tubarões, lixa e outros peixes, com que se
alumiam os engenhos e se breiam os barcos que há na terra, e que
é bastante para se adubar o breu para muitas naus, quando mais
que se à Bahia forem biscainhos ou outros homens que saibam
armar às baleias, em nenhuma parte entram tantas como nela,
onde residem seis meses do ano e mais, de que se fará tanta graxa
que não haja embarcações que a possam trazer à Espanha.