Primeira parte - Capítulo LIV
Que trata de como Mem de Sá foi povoar o Rio de Janeiro.
Partindo Mem de Sá para o Rio de Janeiro, foi visitando a capitania dos Ilhéus, Porto Seguro e a do Espírito Santo, das quais
levou muitos moradores, que como aventureiros os foram acompanhando com seus escravos, nesta jornada; e como chegou ao
Rio de Janeiro viu que lhe havia de custar mais do que cuidava,
como lhe custou; porque o achou fortificado dos franceses na
terra firme, onde tinham feito cercas mui grandes e fortes de madeira, com seus baluartes e artilharia, que lhes umas naus que ali
foram carregar de pau deixaram, com muitas espingardas. Nestas
cercas estavam recolhidos com os franceses os índios tamoios,
que estavam já tão adestrados deles, que pelejavam muito bem
com suas espingardas, para o que não lhes faltava pólvora nem
o necessário, por de tudo estarem bem providos das naus acima
ditas. Desembarcando o governador em terra, tiveram os portugueses grandes escaramuças com os franceses e tamoios; mas uns
e outros se recolheram contra sua vontade para as suas cercas,
que logo foram cercadas e postas em grande aperto; mas, primeiro
que fossem entradas, custou a vida a Estácio de Sá, sobrinho do
governador, e a Gaspar Barbosa, pessoa de muito principal estima, e a outros muitos homens e escravos, e, contudo, foram as
cercas entradas, e muitos dos contrários mortos e os mais cativos.
E como os tamoios não tiveram entre si franceses, se recolheram
pela terra adentro, donde vinham muitas vezes fazer seus saltos,
do que nunca saíram bem. E como Mem de Sá viu que tinha lançado os inimigos da porta, ordenou de fortificar este Rio, fazendo-
-lhe uma estância ao longo da água para defender a barra, a qual
depois reedificou Cristóvão de Barros, sendo capitão deste Rio;
e assentou a cidade, que murou com muros de taipas com suas
torres, em que pôs artilharia necessária, onde edificou algumas
igrejas, com sua casa de Misericórdia e hospital, e um mosteiro
de padres da companhia, que agora é colégio, em que os padres
ensinam latim, para o que lhe faz S. A. mercê cada ano de dois mil
cruzados. E acabada de fortificar e povoar essa cidade, ordenou o
governador de se tornar para a Bahia, deixando nela por capitão
a seu sobrinho Salvador Correia de Sá, com muitos moradores e
oficiais de justiça e de fazenda, convenientes ao serviço d’El-Rei
e ao bem da terra, o qual Salvador Correia defendeu esta cidade
alguns anos mui valorosamente, fazendo guerra ao gentio, de que
alcançou grandes vitórias, e dos franceses, que do Cabo Frio os
vinham ajudar e favorecer, aos quais foi tomar, dentro do Cabo
Frio, uma nau que passava de duzentos tonéis, com canoas que
levou do Rio de Janeiro, com as quais a abalroou e tomou à força
de armas. A esta cidade mandou depois El-Rei D. Sebastião por
capitão e Governador Cristóvão de Barros, que a acrescentou,
fazendo nela em seu tempo muitos serviços a S. A., que se não
podem particularizar em tão pequeno espaço.