Primeira parte - Capítulo LIV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 55 de 271
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Primeira parte - Capítulo LIV

Que trata de como Mem de Sá foi povoar o Rio de Janeiro.

Partindo Mem de Sá para o Rio de Janeiro, foi visitando a capitania dos Ilhéus, Porto Seguro e a do Espírito Santo, das quais

levou muitos moradores, que como aventureiros os foram acompanhando com seus escravos, nesta jornada; e como chegou ao

Rio de Janeiro viu que lhe havia de custar mais do que cuidava,

como lhe custou; porque o achou fortificado dos franceses na

terra firme, onde tinham feito cercas mui grandes e fortes de madeira, com seus baluartes e artilharia, que lhes umas naus que ali

foram carregar de pau deixaram, com muitas espingardas. Nestas

cercas estavam recolhidos com os franceses os índios tamoios,

que estavam já tão adestrados deles, que pelejavam muito bem

com suas espingardas, para o que não lhes faltava pólvora nem

o necessário, por de tudo estarem bem providos das naus acima

ditas. Desembarcando o governador em terra, tiveram os portugueses grandes escaramuças com os franceses e tamoios; mas uns

e outros se recolheram contra sua vontade para as suas cercas,

que logo foram cercadas e postas em grande aperto; mas, primeiro

que fossem entradas, custou a vida a Estácio de Sá, sobrinho do

governador, e a Gaspar Barbosa, pessoa de muito principal estima, e a outros muitos homens e escravos, e, contudo, foram as

cercas entradas, e muitos dos contrários mortos e os mais cativos.

E como os tamoios não tiveram entre si franceses, se recolheram

pela terra adentro, donde vinham muitas vezes fazer seus saltos,

do que nunca saíram bem. E como Mem de Sá viu que tinha lançado os inimigos da porta, ordenou de fortificar este Rio, fazendo-

-lhe uma estância ao longo da água para defender a barra, a qual

depois reedificou Cristóvão de Barros, sendo capitão deste Rio;

e assentou a cidade, que murou com muros de taipas com suas

torres, em que pôs artilharia necessária, onde edificou algumas

igrejas, com sua casa de Misericórdia e hospital, e um mosteiro

de padres da companhia, que agora é colégio, em que os padres

ensinam latim, para o que lhe faz S. A. mercê cada ano de dois mil

cruzados. E acabada de fortificar e povoar essa cidade, ordenou o

governador de se tornar para a Bahia, deixando nela por capitão

a seu sobrinho Salvador Correia de Sá, com muitos moradores e

oficiais de justiça e de fazenda, convenientes ao serviço d’El-Rei

e ao bem da terra, o qual Salvador Correia defendeu esta cidade

alguns anos mui valorosamente, fazendo guerra ao gentio, de que

alcançou grandes vitórias, e dos franceses, que do Cabo Frio os

vinham ajudar e favorecer, aos quais foi tomar, dentro do Cabo

Frio, uma nau que passava de duzentos tonéis, com canoas que

levou do Rio de Janeiro, com as quais a abalroou e tomou à força

de armas. A esta cidade mandou depois El-Rei D. Sebastião por

capitão e Governador Cristóvão de Barros, que a acrescentou,

fazendo nela em seu tempo muitos serviços a S. A., que se não

podem particularizar em tão pequeno espaço.

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