Segunda parte - Capítulo CX
Que trata de algumas cobras grandes que se criam nos rios da Bahia.
Sucuriú é outra casta de cobras, que andam sempre na água, e
não saem à terra; são mui grandes, têm as escamas pardas e brancas, das quais matam os índios muitas de quarenta e cinquenta
palmos de comprimento. Estas engolem um porco d’água, cuja
carne os índios e alguns portugueses comem, e dizem ser muito
gostosa.
Boiúna é outra casta de cobras, que se criam na água, nos rios do
sertão, as quais são descompassadas de grandes e grossas, cheias
de escamas pretas, e têm tamanha garganta que engolem um negro sem o tomarem, entanto que quando o engolem ou alguma
alimária, se metem na água para o afogarem dentro, e não saem da
água senão para remeterem a uma pessoa ou caça, que anda junto
ao rio; e se com a pressa com que engolem a presa se embaraça e
peja, com o que não pode tornar para a água de onde saiu, morre
em terra, e sai-se a pessoa ou alimária de dentro viva; e afirmam os
índios que houve índios que estas cobras engoliram, que estando
dentro da sua barriga tiveram acordo de as matar com a faca que
levavam dependurada ao pescoço, como costumam.
Nos rios e lagoas se criam umas cobras, a que os índios chamam araboia, que são mui grandes, e têm o corpo verde e a cabeça
preta, as quais não saem nunca à terra, e mantêm-se dos peixes e
bichos que tomam na água, cuja carne os índios comem.
Há outra casta de cobras que se criam nos rios, sem saírem à
terra, a que índios chamam taraiboia, que são amarelas e muito
compridas e grossas; as quais se mantêm do peixe que tomam nos
rios e são muito gordas e boas para comer.