Segunda parte - Capítulo CX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 185 de 271
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Segunda parte - Capítulo CX

Que trata de algumas cobras grandes que se criam nos rios da Bahia.

Sucuriú é outra casta de cobras, que andam sempre na água, e

não saem à terra; são mui grandes, têm as escamas pardas e brancas, das quais matam os índios muitas de quarenta e cinquenta

palmos de comprimento. Estas engolem um porco d’água, cuja

carne os índios e alguns portugueses comem, e dizem ser muito

gostosa.

Boiúna é outra casta de cobras, que se criam na água, nos rios do

sertão, as quais são descompassadas de grandes e grossas, cheias

de escamas pretas, e têm tamanha garganta que engolem um negro sem o tomarem, entanto que quando o engolem ou alguma

alimária, se metem na água para o afogarem dentro, e não saem da

água senão para remeterem a uma pessoa ou caça, que anda junto

ao rio; e se com a pressa com que engolem a presa se embaraça e

peja, com o que não pode tornar para a água de onde saiu, morre

em terra, e sai-se a pessoa ou alimária de dentro viva; e afirmam os

índios que houve índios que estas cobras engoliram, que estando

dentro da sua barriga tiveram acordo de as matar com a faca que

levavam dependurada ao pescoço, como costumam.

Nos rios e lagoas se criam umas cobras, a que os índios chamam araboia, que são mui grandes, e têm o corpo verde e a cabeça

preta, as quais não saem nunca à terra, e mantêm-se dos peixes e

bichos que tomam na água, cuja carne os índios comem.

Há outra casta de cobras que se criam nos rios, sem saírem à

terra, a que índios chamam taraiboia, que são amarelas e muito

compridas e grossas; as quais se mantêm do peixe que tomam nos

rios e são muito gordas e boas para comer.

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