Segunda parte - Capítulo XLI
Que trata do muito para que prestam, as raízes da carimã.
Muito é para notar que de uma mesma coisa saia peçonha e
contrapeçonha, como da mandioca, cuja água é cruelíssima peçonha, e a mesma raiz seca é contrapeçonha, a qual se chama
carimã, que se faz desta maneira. Depois que as raízes da mandioca estão curtidas na água, se põe a enxugar sobre o fogo em
cima de umas varas, alevantadas três e quatro palmos do chão e,
como estão bem secas, ficam muito duras, as quais raízes servem
para mil coisas, e têm outras tantas virtudes; a principal serve de
contrapeçonha para os mordidos de cobra, e que comem bichos
peçonhentos, e para os que comem a mesma mandioca por curtir
assada, cuidando que são outras raízes, que chamam aipins, bons
de comer, que se parecem com ela, a qual carimã se dá desta feição:
tomam estas raízes secas, e rapam-lhe o defumado da parte de fora
e ficam alvíssimas e pisam-nas muito bem, e depois peneiram-nas
e fica o pó delas tão delgado e mimoso como de farinha muito
boa; e tomada uma pouca dessa farinha e delida em água fria, que
fique como amendoada, e dada a beber ao tocado da peçonha, faz-
-lhe arremessar quanto tem no bucho, com o que a peçonha que
tem no corpo não vai por diante. E também serve esta carimã para
os meninos que têm lombrigas, aos quais se dá a beber desfeita na
água, como fica dito, e mata-lhes as lombrigas todas; e uma coisa
e outra está muito experimentada, assim pelos índios, como pelos
portugueses.
Da mesma farinha da carimã se faz uma massa que posta sobre
feridas velhas que têm carne podre lha come toda, até que deixe a
ferida limpa; e quando os índios estão doentes, a sua dieta é fazerem deste pó de carimã uns caldinhos no fogo (como os de poejos)
que bebem, com que se acham mui bem por ser muito leve, e o
mesmo usam os brancos no mato, lançando-lhe mel ou açúcar,
com o que se acham bem; e outras muitas coisas de comer que se
fazem desta carimã que se apontam no capítulo que se segue.