Segunda parte - Capítulo CXXXII
Em que se trata dos peixes de couro que há na Bahia.
Panapaná é uma casta de cações que em tudo o parecem, se não
quando têm na ponta do focinho uma roda de meio compasso, de
palmo e meio e de dois palmos, o qual peixe tem grandes fígados
como tubarões; e os grandes tomam-se com anzóis de candeia, e
os pequenos à linha ou em redes, de mistura com o outro peixe;
comem-se os grandes secos, em tassalhos, e os pequenos frescos, e
são muito gostosos e leves, frescos e secos.
Aos cações chamam os índios socuri, do que há muitos na
Bahia, que se tomam à linha e com redes; e os pequenos são mui
leves e saborosos, e uns e outros não têm na feição nenhuma diferença dos que andam na Espanha.
Há outro peixe, a que os índios chamam curis e os portugueses
bagres; têm o couro prateado, sem escama, tomam-se à linha, têm
a cabeça como enxarrroco, mas muito dura; e tem o miolo dela
duas pedrinhas brancas muito lindas; este peixe se toma em todo
o ano, e é muito leve e gostoso.
Há outra casta de bagres, que têm a mesma feição, mas têm
o couro amarelo, a que os índios chamam urutus, que também
morrem em todo o ano à linha, da boca dos rios para dentro até
onde chega a maré, cujas peles se pegam muito nos dedos; e não
são tão saborosos como os bagres brancos.
Chamam os índios às moreias caramuru, das quais há muitas,
mui grandes e mui pintadas como as da Espanha, as quais mordem muito, e têm muitas espinhas, e são muito gordas e saborosas; não as há senão junto das pedras, onde as tomam às mãos.
Arraias há na Bahia muitas, as quais chamam os índios jabupirá e são de muitas castas como as de Lisboa; e morrem à linha e em
redes; há umas muito grandes e outras pequenas que são muito
saborosas e sadias.