Segunda parte - Capítulo XXVII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 102 de 271
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Segunda parte - Capítulo XXVII

Em que se declara a terra do Rio de Paraguaçu, tocante à capitania

de Dom Álvaro.

Até agora tratamos neste capítulo atrás da grandeza do Rio de

Paraguaçu, no tocante à terra d’El-Rei, e daqui por diante convém

tratar do mesmo rio, e declarar a terra da outra banda, que é da

capitania de D. Álvaro da Costa, que tem da boca da barra deste rio

por ele acima dez léguas de terra, e ao longo do mar da baía até o

Rio de Jaguaripe, e por ele acima, outras dez léguas; de que El-Rei

D. João lhe fez mercê, com título de capitão e governador desta

terra, de que diremos neste capítulo.

Começando da cachoeira deste Rio de Paraguaçu para baixo,

descendo sobre a mão direita, o qual rio está povoado de muitos

moradores por onde faz muitos esteiros, em que se metem outras

ribeiras, sem haver ainda nenhum engenho; e saindo pela boca

fora deste rio à baía que o salgado nele faz, e virando sobre a mão

direita obra de uma légua ao longo das ilhas de que já dissemos,

se vai dar no braço que se diz de Igaraçu; e por ele acima espaço

de duas léguas vai o rio mui largo, cuja terra da parte esquerda

é fraca, de campinas, e mal povoada de fazendas, e da banda direita é a terra boa, mas muito fragosa e povoada de fazendas. No

cabo destas duas léguas se aparta este rio em três braços, por onde

entra a maré. E no braço da mão direita está o engenho de Lopo

Fernandes, obra mui forte, e de pedra e cal assim o engenho como

os mais edifícios, e a igreja, que é de Nossa Senhora da Graça, obra

mui bem acabada, com seus canaviais ao redor do engenho, de

que faz muito açúcar. Pelo braço do meio vai subindo a maré duas

léguas, ao cabo das quais se mete nele uma formosa ribeira de

água que se diz Igaraçu, onde pode fazer um engenho; e de uma

banda e da outra é tudo povoado de roças e canaviais. Na ponta

desta terra entre um esteiro e outro está uma ermida de São João;

e pelo outro esteiro, que está à mão esquerda, está um próspero

engenho de pedra e cal, com grandes edifícios de casas de vivenda

e de purgar, e uma formosa igreja. Este engenho é copioso como

os mais do rio, o qual edificou Antônio Adorno, cujos herdeiros o

possuem agora. Neste Rio de Paraguaçu e em todos os seus recôncavos, por onde entra o salgado, há muito marisco de toda a sorte,

especialmente ostras muito grandes, onde numa maré vazia quatro negros carregam um barco delas, e tem grandes pescarias, assim de rede como de linha, especialmente na baía que faz abaixo;

porque por uma banda tem duas léguas de comprido e por outras

duas de largo, pouco mais ou menos, e em toda a terra deste rio há

muita caça.

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