Segunda parte - Capítulo XXVII
Em que se declara a terra do Rio de Paraguaçu, tocante à capitania
de Dom Álvaro.
Até agora tratamos neste capítulo atrás da grandeza do Rio de
Paraguaçu, no tocante à terra d’El-Rei, e daqui por diante convém
tratar do mesmo rio, e declarar a terra da outra banda, que é da
capitania de D. Álvaro da Costa, que tem da boca da barra deste rio
por ele acima dez léguas de terra, e ao longo do mar da baía até o
Rio de Jaguaripe, e por ele acima, outras dez léguas; de que El-Rei
D. João lhe fez mercê, com título de capitão e governador desta
terra, de que diremos neste capítulo.
Começando da cachoeira deste Rio de Paraguaçu para baixo,
descendo sobre a mão direita, o qual rio está povoado de muitos
moradores por onde faz muitos esteiros, em que se metem outras
ribeiras, sem haver ainda nenhum engenho; e saindo pela boca
fora deste rio à baía que o salgado nele faz, e virando sobre a mão
direita obra de uma légua ao longo das ilhas de que já dissemos,
se vai dar no braço que se diz de Igaraçu; e por ele acima espaço
de duas léguas vai o rio mui largo, cuja terra da parte esquerda
é fraca, de campinas, e mal povoada de fazendas, e da banda direita é a terra boa, mas muito fragosa e povoada de fazendas. No
cabo destas duas léguas se aparta este rio em três braços, por onde
entra a maré. E no braço da mão direita está o engenho de Lopo
Fernandes, obra mui forte, e de pedra e cal assim o engenho como
os mais edifícios, e a igreja, que é de Nossa Senhora da Graça, obra
mui bem acabada, com seus canaviais ao redor do engenho, de
que faz muito açúcar. Pelo braço do meio vai subindo a maré duas
léguas, ao cabo das quais se mete nele uma formosa ribeira de
água que se diz Igaraçu, onde pode fazer um engenho; e de uma
banda e da outra é tudo povoado de roças e canaviais. Na ponta
desta terra entre um esteiro e outro está uma ermida de São João;
e pelo outro esteiro, que está à mão esquerda, está um próspero
engenho de pedra e cal, com grandes edifícios de casas de vivenda
e de purgar, e uma formosa igreja. Este engenho é copioso como
os mais do rio, o qual edificou Antônio Adorno, cujos herdeiros o
possuem agora. Neste Rio de Paraguaçu e em todos os seus recôncavos, por onde entra o salgado, há muito marisco de toda a sorte,
especialmente ostras muito grandes, onde numa maré vazia quatro negros carregam um barco delas, e tem grandes pescarias, assim de rede como de linha, especialmente na baía que faz abaixo;
porque por uma banda tem duas léguas de comprido e por outras
duas de largo, pouco mais ou menos, e em toda a terra deste rio há
muita caça.