Segunda parte - Capítulo CXCII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 267 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXCII

Em que se aponta o aparelho que na Bahia tem para se fazer pólvora,

e muita picaria e armas de algodão.

Pois temos dito o aparelho que a Bahia tem para se fortificar

e defender dos corsários, se a forem cometer, saibamos se tem alguns aparelhos naturais da terra com que se possam ofender seus

inimigos, não falando nos arcos e flechas do gentio, com o que os

escravos da Guiné, mamelucos, e outros muitos homens bravos

naturais de terra sabem pelejar, do que há tanta quantidade nesta

província; mas digamos das maravilhosas armas de algodão que

se fazem na Bahia, geralmente por todas as casas dos moradores,

as quais não passa besta, nem flecha nenhuma; do que se os portugueses querem antes armar que de cossoletes, nem couraças; porque a flechada que dá nestas armas resvala por elas e faz dano aos

companheiros; e deste estofado de algodão armam os portugueses os corpos e fazem do mesmo estofado celados para a cabeça,

e muito boas adargas. Fazem também na Bahia paveses e rodelas

de copaíba, de que fizemos menção quando falamos da natureza

desta árvore, as quais rodelas são tão boas como as do adargueiro,

e além disso por serem mais leves e estopentas, do que se farão

infinidade delas muito grandes e boas.

Dão-se na Bahia muitas hastes de lanças do comprimento que

quiserem, as quais são mais pesadas que as de faia, mas são muito

mais fortes e formosas; e das árvores de que estas hastes tiram, há

muitas de que se pode fazer muita picaria, e infinidade de dardos

de arremesso, que os tupinambás sabem muito bem fazer.

E chegando ao principal, que é a pólvora, em todo o mundo

se não sabe que haja tão bom aparelho para ela como na Bahia,

porque tem muitas serras que não têm outra coisa senão salitre,

o qual está em pedra alvíssima sobre a terra, tão fino que assim

pega o fogo dele como de pólvora mui refinada; pelo que se pode

fazer na Bahia tanta quantidade dela que se possa dela trazer tanta

para a Espanha, com que se forneçam todos os Estados de que Sua

Majestade é rei e senhor, sem esperar que lhe venha da Alemanha,

nem de outras partes, de onde trazem este salitre com tanta despesa e trabalho, do que se deve de fazer muita conta.

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