Segunda parte - Capítulo CXCII
Em que se aponta o aparelho que na Bahia tem para se fazer pólvora,
e muita picaria e armas de algodão.
Pois temos dito o aparelho que a Bahia tem para se fortificar
e defender dos corsários, se a forem cometer, saibamos se tem alguns aparelhos naturais da terra com que se possam ofender seus
inimigos, não falando nos arcos e flechas do gentio, com o que os
escravos da Guiné, mamelucos, e outros muitos homens bravos
naturais de terra sabem pelejar, do que há tanta quantidade nesta
província; mas digamos das maravilhosas armas de algodão que
se fazem na Bahia, geralmente por todas as casas dos moradores,
as quais não passa besta, nem flecha nenhuma; do que se os portugueses querem antes armar que de cossoletes, nem couraças; porque a flechada que dá nestas armas resvala por elas e faz dano aos
companheiros; e deste estofado de algodão armam os portugueses os corpos e fazem do mesmo estofado celados para a cabeça,
e muito boas adargas. Fazem também na Bahia paveses e rodelas
de copaíba, de que fizemos menção quando falamos da natureza
desta árvore, as quais rodelas são tão boas como as do adargueiro,
e além disso por serem mais leves e estopentas, do que se farão
infinidade delas muito grandes e boas.
Dão-se na Bahia muitas hastes de lanças do comprimento que
quiserem, as quais são mais pesadas que as de faia, mas são muito
mais fortes e formosas; e das árvores de que estas hastes tiram, há
muitas de que se pode fazer muita picaria, e infinidade de dardos
de arremesso, que os tupinambás sabem muito bem fazer.
E chegando ao principal, que é a pólvora, em todo o mundo
se não sabe que haja tão bom aparelho para ela como na Bahia,
porque tem muitas serras que não têm outra coisa senão salitre,
o qual está em pedra alvíssima sobre a terra, tão fino que assim
pega o fogo dele como de pólvora mui refinada; pelo que se pode
fazer na Bahia tanta quantidade dela que se possa dela trazer tanta
para a Espanha, com que se forneçam todos os Estados de que Sua
Majestade é rei e senhor, sem esperar que lhe venha da Alemanha,
nem de outras partes, de onde trazem este salitre com tanta despesa e trabalho, do que se deve de fazer muita conta.