Primeira parte - Capítulo XLV
Em que se diz quem são os goitacases, sua vida e costumes.
Pois que temos declarado quase toda a costa que senhoreavam
os goitacases, não é bem que nos despeçamos dela passando por
eles, pois temos dito parte dos danos que fizeram aos povoadores
do Espírito Santo e aos da Paraíba, os quais antigamente partiam
pela costa do mar da banda do sul com os tamoios, e de norte com
os papanases, que viviam entre eles, e os tupiniquins, e como
eram seus contrários, vieram a ter com eles tão cruel guerra que
os fizeram despejar a ribeira do mar, e irem-se para o sertão, com
o que ficaram senhores da costa até confinar com os tupiniquins,
cujos contrários também são, e se matam e comem uns aos outros, entre os quais estava por marco o Rio de Cricaré.
Este gentio foi o que fez despovoar a Pedro de Góis, e que deu
tantos trabalhos a Vasco Fernandes Coutinho. Esse gentio tem a
cor mais branca que os que dissemos atrás, e tem diferente linguagem; é muito bárbaro; o qual não granjeia muita lavoura de
mantimentos: plantam somente legumes, de que se mantêm, e a
caça, que matam às flechadas, porque são grandes flecheiros. Não
costuma esta gente pelejar no mato, mas em campo descoberto,
nem são muito amigos de comer carne humana, como o gentio
atrás; não dormem em redes, mas no chão, com folhas debaixo
de si. Costumavam estes bárbaros, por não terem outro remédio,
andarem no mar nadando, esperando os tubarões com um pau
muito agudo na mão, e, em remetendo o tubarão a eles, lhe davam
com o pau, que lhe metiam pela garganta com tanta força que o
afogavam, e matavam, e o traziam à terra, não para o comerem
para o que se não punham em tamanho perigo, senão para lhes
tirar os dentes, para os engastarem nas pontas das flechas. Tem
esse gentio muita parte dos costumes dos tupinambás, assim no
cantar, no bailar, tingir-se de jenipapo, na feição do cabelo da cabeça e no arrancar os mais cabelos do corpo e outras gentilidades
muitas que, por escusar prolixidade, as guardamos para se dizerem uma só vez.