Segunda parte - Capítulo CXXVIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 203 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXXVIII

Que trata do peixe-serra, tubarões, toninhas e lixas. Araguaguá é chamado pelos índios o peixe a que os portugueses chamam peixe-serra; os quais têm o couro e feição dos

tubarões, mas têm no focinho uma espinha de osso muito dura,

com dentes de ambas as bandas mui grandes, uns de meio palmo,

e outros de mais, e de menos; segundo o peixe, é a espinha de seis,

sete palmos de comprido, os quais se defendem com elas dos tubarões e de outros peixes. Estes se tomam com anzóis de cadeia

com arpoeiras compridas, que lhe largam para quebrar a fúria e

se vazar do sangue. Este peixe naturalmente é seco, e fazem-no

em tassalhos para se secar, que serve a gente do serviço; e tem tamanhos fígados, que se tomam muitos de cujos fígados, se tiram

trinta e quarenta canadas de azeite, que serve para a candeia e

para concertar o breu para os barcos.

Uperu é o peixe a que os portugueses chamam tubarão, que há

muita soma no mar da Bahia; estes comem gente, se lhe chegam

a lanço, e andam sempre à caça do peixe miúdo; aos quais matam

com anzóis de cadeia com grandes arpoeiras, como o peixe-serra,

nos quais acham pegados os peixes romeiros, como nos do mar

largo; cuja carne comem os índios, e em tassalhos secos se gasta

com a gente dos engenhos, os quais têm tamanhos fígados que se

tiram deles vinte a vinte e quatro canadas de azeite; cujos dentes

aproveitam os índios, que os engastam nas pontas das flechas; e os

que os têm são muito estimados deles.

Por tempo de calma, aparecem no mar da Bahia toninhas, a que

os índios chamam pojoji, dos quais também foge o peixe miúdo

para os recôncavos; mas não se faz conta deles para os matarem

em nenhum tempo.

No mar da Bahia, se criam muitas lixas maiores que as da

Espanha, que aparecem em certa monção do ano, as quais têm

tamanhos fígados que se tiram deles quinze a vinte canadas de

azeite, as quais andam ao longo da areia, onde há pouco fundo, e

tomam-nas com arpéus, o que esperam bem; e secas e escaladas

servem para a gente dos engenhos, e para matalotagem da gente

que há de passar o mar.

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