Segunda parte - Capítulo CXXVIII
Que trata do peixe-serra, tubarões, toninhas e lixas. Araguaguá é chamado pelos índios o peixe a que os portugueses chamam peixe-serra; os quais têm o couro e feição dos
tubarões, mas têm no focinho uma espinha de osso muito dura,
com dentes de ambas as bandas mui grandes, uns de meio palmo,
e outros de mais, e de menos; segundo o peixe, é a espinha de seis,
sete palmos de comprido, os quais se defendem com elas dos tubarões e de outros peixes. Estes se tomam com anzóis de cadeia
com arpoeiras compridas, que lhe largam para quebrar a fúria e
se vazar do sangue. Este peixe naturalmente é seco, e fazem-no
em tassalhos para se secar, que serve a gente do serviço; e tem tamanhos fígados, que se tomam muitos de cujos fígados, se tiram
trinta e quarenta canadas de azeite, que serve para a candeia e
para concertar o breu para os barcos.
Uperu é o peixe a que os portugueses chamam tubarão, que há
muita soma no mar da Bahia; estes comem gente, se lhe chegam
a lanço, e andam sempre à caça do peixe miúdo; aos quais matam
com anzóis de cadeia com grandes arpoeiras, como o peixe-serra,
nos quais acham pegados os peixes romeiros, como nos do mar
largo; cuja carne comem os índios, e em tassalhos secos se gasta
com a gente dos engenhos, os quais têm tamanhos fígados que se
tiram deles vinte a vinte e quatro canadas de azeite; cujos dentes
aproveitam os índios, que os engastam nas pontas das flechas; e os
que os têm são muito estimados deles.
Por tempo de calma, aparecem no mar da Bahia toninhas, a que
os índios chamam pojoji, dos quais também foge o peixe miúdo
para os recôncavos; mas não se faz conta deles para os matarem
em nenhum tempo.
No mar da Bahia, se criam muitas lixas maiores que as da
Espanha, que aparecem em certa monção do ano, as quais têm
tamanhos fígados que se tiram deles quinze a vinte canadas de
azeite, as quais andam ao longo da areia, onde há pouco fundo, e
tomam-nas com arpéus, o que esperam bem; e secas e escaladas
servem para a gente dos engenhos, e para matalotagem da gente
que há de passar o mar.