Segunda parte - Capítulo CLXXII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 247 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXXII

Que trata da festa e aparato que os tupinambás fazem para matarem em terreiro seus contrários.

Como os tupinambás veem que os contrários que têm cativos

estão já bons para matar, ordenam de fazer grandes festas a cada

um, para as quais há grandes ajuntamentos de parentes e amigos,

que para isso são chamados de trinta e quarenta léguas, para a

vinda dos quais fazem grandes vinhos, que bebem com grandes

festas; mas fazem-na muito maiores para o dia do sacrifício do

que há de padecer, com grandes cantares, e à véspera em todo dia

cantam e bailam, e ao dia se bebem muitos vinhos pela manhã,

com motes que dizem sobre a cabeça do que há de padecer, que

também bebe com eles. E os que cantam suas cantigas vituperando o que há de padecer e exalçando o matador, dizendo suas proezas e louvores; e antes que bebam os vinhos untam o cativo todo

com mel de abelhas, e por cima desse mel o empenam todo com

penas de cores, e pintam-no a lugares de jenipapo, e os pés com

uma tinta vermelha, e metem-lhe uma espada de pau nas mãos

para que se defenda de quem o quer matar com ela, como puder;

e, quando estes cativos veem chegada a hora em que hão de padecer, começam a pregar e dizer grandes louvores de sua pessoa,

dizendo que já estão vingados de quem os há de matar, contando

grandes façanhas suas e mortes que deram aos parentes do matador, ao qual ameaçam e a toda a gente da aldeia, dizendo que seus

parentes os vingarão. E começam a levar este preso a um terreiro

fora da aldeia, que para esta execução está preparado, e metem -

-no entre dois moirões, que estão metidos no chão, afastados um

do outro por vinte palmos, pouco mais ou menos, os quais estão

furados, e por cada furo metem as pontas das cordas com que o

contrário vem preso, onde fica preso como touro de cordas, onde

lhe as velhas dizem que se farte de ver o sol, pois tem o fim tão

chegado; ao que o cativo responde com grande coragem, pois que

ele tem vingança da sua morte tão certa, que aceita o morrer com

muito esforço. E antes de lhe chegar a execução, contemos como

se prepara o matador.

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