Segunda parte - Capítulo XCV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 170 de 271
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Segunda parte - Capítulo XCV

Em que se trata de uma alimária que se chama jaguaretê.

Têm para si os portugueses que jaguaretê é onça, e outros dizem que é tigre; cuja grandura é como um bezerro de seis meses;

falo dos machos, porque as fêmeas são maiores. A maior parte

destas alimárias são ruivas, cheias de pintas pretas; e algumas

fêmeas são todas pretas; e todos têm o cabelo nédio, e o rosto a

modo de cão e as mãos e unhas muito grandes, o rabo comprido; e o cabelo nele como nas ancas. Têm presas nos dentes como

lebréu, os olhos como gato, que lhe luzem de noite tanto que se

conhecem por isso a meia légua; têm os braços e pernas muito

grossos; parem as fêmeas uma e duas crianças; se lhes matam algum filho andam tão bravas que dão nas roças dos índios, onde

matam todos quantos podem alcançar; comem a caça que matam,

para o que são mui ligeiras, e tanto que lhes não escapa nenhuma alimária grande por pés; e saltam por cima a pique altura de

dez, doze palmos; e trepam pelas árvores após os índios, quando o

tronco é grosso; salteiam o gentio de noite pelos caminhos, onde

os matam e comem; e quando andam esfaimadas entram-lhes nas

casas das roças, se lhes não sentem fogo, ao que têm grande medo.

E na vizinhança das povoações dos portugueses fazem muito

dano nas vacas, e como se começam a encarniçar nelas destroem

um curral; e têm tanta força que com uma unhada que dão numa

vaca lhe derrubam a anca no chão.

Armam os índios a estas alimárias em mundéus, que são uma

tapagem de pau a pique, muito alta e forte, com uma só porta;

onde lhes armam com uma árvore alta e grande levantada do

chão, onde lhes põem um cachorro ou outra alimária presa; e

indo para a tomar cai esta árvore que está deitada sobre esta alimária, onde dá grandes bramidos; ao que os índios acodem e a

matam às flechadas; e comem-lhe a carne, que é muito dura e não

tem nenhum sebo.

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