Segunda parte - Capítulo XCV
Em que se trata de uma alimária que se chama jaguaretê.
Têm para si os portugueses que jaguaretê é onça, e outros dizem que é tigre; cuja grandura é como um bezerro de seis meses;
falo dos machos, porque as fêmeas são maiores. A maior parte
destas alimárias são ruivas, cheias de pintas pretas; e algumas
fêmeas são todas pretas; e todos têm o cabelo nédio, e o rosto a
modo de cão e as mãos e unhas muito grandes, o rabo comprido; e o cabelo nele como nas ancas. Têm presas nos dentes como
lebréu, os olhos como gato, que lhe luzem de noite tanto que se
conhecem por isso a meia légua; têm os braços e pernas muito
grossos; parem as fêmeas uma e duas crianças; se lhes matam algum filho andam tão bravas que dão nas roças dos índios, onde
matam todos quantos podem alcançar; comem a caça que matam,
para o que são mui ligeiras, e tanto que lhes não escapa nenhuma alimária grande por pés; e saltam por cima a pique altura de
dez, doze palmos; e trepam pelas árvores após os índios, quando o
tronco é grosso; salteiam o gentio de noite pelos caminhos, onde
os matam e comem; e quando andam esfaimadas entram-lhes nas
casas das roças, se lhes não sentem fogo, ao que têm grande medo.
E na vizinhança das povoações dos portugueses fazem muito
dano nas vacas, e como se começam a encarniçar nelas destroem
um curral; e têm tanta força que com uma unhada que dão numa
vaca lhe derrubam a anca no chão.
Armam os índios a estas alimárias em mundéus, que são uma
tapagem de pau a pique, muito alta e forte, com uma só porta;
onde lhes armam com uma árvore alta e grande levantada do
chão, onde lhes põem um cachorro ou outra alimária presa; e
indo para a tomar cai esta árvore que está deitada sobre esta alimária, onde dá grandes bramidos; ao que os índios acodem e a
matam às flechadas; e comem-lhe a carne, que é muito dura e não
tem nenhum sebo.