Segunda parte - Capítulo XXXV
Em que se conta de outros frutos estrangeiros que se dão na Bahia.
Da Ilha de São Tomé levaram à Bahia gengibre, e começou-se de
plantar obra de meia arroba dele, repartindo por muitas pessoas, o
qual se deu na terra de maneira que daí a quatro anos se colheram
mais de quatro mil arrobas, o qual é com muita vantagem do que
vem da Índia, em grandeza e fineza, porque se colheu dele penca
que pesava dez e doze arráteis, mas não o sabiam curar bem, como
o da Índia, porque ficava denegrido do qual se fazia muita e boa
conserva, do que se não usa já na terra por El-Rei defender que o
não tirem para fora. Como se isto soube, o deixaram os homens
pelos campos, sem o quererem recolher, e por não terem nenhuma saída para fora apodreceram na terra muitas lájeas cheias dele.
Arroz se dá na Bahia melhor que em outra nenhuma parte
sabida, porque o semeiam em brejos e em terras enxutas; como
é terra baixa é sem dúvida que o ano dê novidade; de cada alqueire de semeadura se recolhe de quarenta para sessenta alqueires,
o qual é tão grado e formoso como o de Valência; e a terra em
que se semeia se a tornam a limpar dá outra novidade, sem lhe
lançarem semente nova, senão a que lhe caiu ao colher da novidade. Levaram a semente do arroz ao Brasil de Cabo Verde, cuja
palha se a comem os cavalos lhes faz muito mormo, e, se comem
muito dela, morrem disso.
Da Ilha de Cabo Verde e da de São Tomé foram à Bahia inhames que se plantaram na terra logo, onde se deram de maneira
que pasmam os negros de Guiné, que são os que usam mais dele;
e colhem inhames que não pode um negro fazer mais que tomar
um às costas; o gentio da terra não usa deles porque os seus, a
que chamam carás, são mais saborosos, de quem diremos em seu
lugar.