Segunda parte - Capítulo LIII
Que trata da árvore dos umbus, que se dá pelo sertão da Bahia.
Umbu é uma árvore pouco alegre à vista, áspera da madeira,
e com espinhos como romeira, e do seu tamanho, a qual tem a
folha miúda. Dá esta árvore umas flores brancas, e o fruto, do
mesmo nome, do tamanho e feição das ameixas brandas, e tem
a mesma cor e sabor, e o caroço maior. Dá-se esta fruta ordinariamente pelo sertão, no mato que se chama a caatinga, que está pelo
menos afastado vinte léguas do mar, que é terra seca, de pouca
água, onde a natureza criou a estas árvores para remédio da sede
que os índios por ali passam. Esta árvore lança das raízes naturais
outras raízes tamanhas e da feição das botijas, outras maiores e
menores, redondas e compridas como batatas, e acham-se algumas afastadas da árvore cinquenta e sessenta passos, e outras mais
ao perto. E para o gentio saber onde estas raízes estão, anda batendo com um pau pelo chão, por cujo tom o conhece, onde cava
e tira as raízes de três e quatro palmos de alto, e outras se acham
à flor da terra, às quais se tira uma casca parda que tem, como a
dos inhames, e ficam alvíssimas e brandas como maçãs de coco;
cujo sabor é mui doce, e tão sumarento que se desfaz na boca tudo
em água frigidíssima e mui desencalmada; com o que a gente que
anda pelo sertão mata a sede onde não acha água para beber, e
mata a fome comendo esta raiz, que é mui sadia, e não fez nunca
mal a ninguém que comesse muito dela. Destas árvores há já algumas nas fazendas dos portugueses, que nasceram dos caroços dos
umbus, onde dão o mesmo fruto e raízes.