Primeira parte - Capítulo XVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 17 de 271
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Primeira parte - Capítulo XVI

Do tamanho da vila de Olinda e da grandeza de seu termo, quem foi

o primeiro povoador dela.

A vila de Olinda é a cabeça da capitania de Pernambuco, a

qual povoou Duarte Coelho, que foi um fidalgo, de cujo esforço

e cavalaria escusaremos tratar aqui em particular, por não escurecer muito que dele dizem os livros da Índia, de cujos feitos

estão cheios. Depois que Duarte Coelho veio da Índia a Portugal,

a buscar satisfação de seus serviços, pediu a S. A. que lhe fizesse

mercê de uma capitania nesta costa, que logo lhe concedeu, abalizando-lha da boca do Rio de São Francisco da banda do noroeste

e correndo dela pela costa cinquenta léguas contra Itamaracá que

se acabam no Rio de Igaruçu, como já fica dito; e como a este valoroso capitão sobravam sempre espíritos para cometer grandes

feitos, não lhe faltaram para vir em pessoa povoar e conquistar

esta sua capitania, onde veio com uma frota de navios que armou

à sua custa, na qual trouxe sua mulher e filhos e muitos parentes

de ambos, e outros moradores com a qual tomou este porto que se

diz de Pernambuco por uma pedra que junto dele está furada no

mar, que quer dizer pela língua do gentio mar furado. Chegando

Duarte Coelho a este porto, desembarcou nele e fortificou-se,

onde agora está a vila em um alto livre de padrastos, da melhor

maneira que foi possível, onde fez uma torre de pedra e cal, que

ainda agora está na praça da vila, onde muitos anos teve grandes

trabalhos de guerra com o gentio e franceses que em sua companhia andavam, dos quais foi cercado muitas vezes, malferido

e mui apertado, onde lhe mataram muita gente; mas ele, com a

constância de seu esforço, não desistiu nunca da sua pretensão,

e não tão somente se defendeu valorosamente, mas ofendeu e

resistiu aos inimigos, de maneira que os fez afastar da povoação e

despejar as terras vizinhas aos moradores delas, onde depois seu

filho, do mesmo nome, lhe fez guerra, maltratando e cativando

neste gentio, que é o que se chama caeté, que o fez despejar a costa

toda, como esta o é hoje em dia, e afastar mais de cinquenta léguas

pelo sertão. Nestes trabalhos gastou Duarte, o velho, muitos mil

cruzados, que adquiriu na Índia, a qual despesa foi bem empregada, pois dela resultou ter hoje seu filho Jorge de Albuquerque

Coelho dez mil cruzados de renda, que tanto lhe importa a sua

redízima e dízima do pescado e os foros que lhe pagam os engenhos, dos quais estão feitos em Pernambuco cinquenta, que fazem

tanto açúcar que estão os dízimos dele arrendados em dezenove

mil cruzados cada ano. Esta vila de Olinda terá setecentos vizinhos, pouco mais ou menos, mas tem muitos mais no seu termo,

porque em cada um destes engenhos vivem vinte e trinta vizinhos, fora os que vivem nas roças, afastados deles, que é muita

gente; de maneira que, quando for necessário ajuntar-se a esta

gente com armas, pôr-se-ão em campo mais de três mil homens

de peleja com os moradores da vila de Cosmos, entre os quais haverá quatrocentos homens de cavalo. Esta gente pode trazer de

suas fazendas quatro ou cinco mil escravos da Guiné e muitos do

gentio da terra. É tão poderosa esta capitania que há nela mais de

cem homens que têm de mil até cinco mil cruzados de renda, e alguns de oito, dez mil cruzados. Desta terra saíram muitos homens

ricos para estes reinos que foram a ela muito pobres, com os quais

entram cada ano desta capitania quarenta e cinquenta navios carregados de açúcar e pau-brasil, o qual é o mais fino que se acha em

toda a costa; e importa tanto este pau a Sua Majestade que o tem

agora novamente arrendado por tempo de dez anos por vinte mil

cruzados cada ano. E parece que será tão rica e tão poderosa, de

onde saem tantos provimentos para estes reinos, que se devia de

ter mais em conta a fortificação dela, e não consentir que esteja

arriscada a um corsário a saquear e destruir, o que se pode atalhar

com pouca despesa e menos trabalho.

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