Primeira parte - Capítulo XVI
Do tamanho da vila de Olinda e da grandeza de seu termo, quem foi
o primeiro povoador dela.
A vila de Olinda é a cabeça da capitania de Pernambuco, a
qual povoou Duarte Coelho, que foi um fidalgo, de cujo esforço
e cavalaria escusaremos tratar aqui em particular, por não escurecer muito que dele dizem os livros da Índia, de cujos feitos
estão cheios. Depois que Duarte Coelho veio da Índia a Portugal,
a buscar satisfação de seus serviços, pediu a S. A. que lhe fizesse
mercê de uma capitania nesta costa, que logo lhe concedeu, abalizando-lha da boca do Rio de São Francisco da banda do noroeste
e correndo dela pela costa cinquenta léguas contra Itamaracá que
se acabam no Rio de Igaruçu, como já fica dito; e como a este valoroso capitão sobravam sempre espíritos para cometer grandes
feitos, não lhe faltaram para vir em pessoa povoar e conquistar
esta sua capitania, onde veio com uma frota de navios que armou
à sua custa, na qual trouxe sua mulher e filhos e muitos parentes
de ambos, e outros moradores com a qual tomou este porto que se
diz de Pernambuco por uma pedra que junto dele está furada no
mar, que quer dizer pela língua do gentio mar furado. Chegando
Duarte Coelho a este porto, desembarcou nele e fortificou-se,
onde agora está a vila em um alto livre de padrastos, da melhor
maneira que foi possível, onde fez uma torre de pedra e cal, que
ainda agora está na praça da vila, onde muitos anos teve grandes
trabalhos de guerra com o gentio e franceses que em sua companhia andavam, dos quais foi cercado muitas vezes, malferido
e mui apertado, onde lhe mataram muita gente; mas ele, com a
constância de seu esforço, não desistiu nunca da sua pretensão,
e não tão somente se defendeu valorosamente, mas ofendeu e
resistiu aos inimigos, de maneira que os fez afastar da povoação e
despejar as terras vizinhas aos moradores delas, onde depois seu
filho, do mesmo nome, lhe fez guerra, maltratando e cativando
neste gentio, que é o que se chama caeté, que o fez despejar a costa
toda, como esta o é hoje em dia, e afastar mais de cinquenta léguas
pelo sertão. Nestes trabalhos gastou Duarte, o velho, muitos mil
cruzados, que adquiriu na Índia, a qual despesa foi bem empregada, pois dela resultou ter hoje seu filho Jorge de Albuquerque
Coelho dez mil cruzados de renda, que tanto lhe importa a sua
redízima e dízima do pescado e os foros que lhe pagam os engenhos, dos quais estão feitos em Pernambuco cinquenta, que fazem
tanto açúcar que estão os dízimos dele arrendados em dezenove
mil cruzados cada ano. Esta vila de Olinda terá setecentos vizinhos, pouco mais ou menos, mas tem muitos mais no seu termo,
porque em cada um destes engenhos vivem vinte e trinta vizinhos, fora os que vivem nas roças, afastados deles, que é muita
gente; de maneira que, quando for necessário ajuntar-se a esta
gente com armas, pôr-se-ão em campo mais de três mil homens
de peleja com os moradores da vila de Cosmos, entre os quais haverá quatrocentos homens de cavalo. Esta gente pode trazer de
suas fazendas quatro ou cinco mil escravos da Guiné e muitos do
gentio da terra. É tão poderosa esta capitania que há nela mais de
cem homens que têm de mil até cinco mil cruzados de renda, e alguns de oito, dez mil cruzados. Desta terra saíram muitos homens
ricos para estes reinos que foram a ela muito pobres, com os quais
entram cada ano desta capitania quarenta e cinquenta navios carregados de açúcar e pau-brasil, o qual é o mais fino que se acha em
toda a costa; e importa tanto este pau a Sua Majestade que o tem
agora novamente arrendado por tempo de dez anos por vinte mil
cruzados cada ano. E parece que será tão rica e tão poderosa, de
onde saem tantos provimentos para estes reinos, que se devia de
ter mais em conta a fortificação dela, e não consentir que esteja
arriscada a um corsário a saquear e destruir, o que se pode atalhar
com pouca despesa e menos trabalho.