Segunda parte - Capítulo CXIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 188 de 271
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Segunda parte - Capítulo CXIII

Em que se declara a natureza de cobras diversas.

Surucucu são umas cobras muito grandes e brancas na cor, que

andam pelas árvores, de onde remetem à gente, e à caça que passa por junto delas, as quais têm os dentes tamanhos que quando

mordem levam logo bocado de carne fora. Destas cobras são os índios muito amigos, e tomam-nas numas armadilhas que chamam

mundéus, e se o macho acha ali a fêmea presa e morta, espera ali

o armador, com que se cinge, e não o larga até que o mata, e torna

a esperar ali até que venha outra pessoa, a quem morde somente,

e com esta vingança se vai daquele lugar.

Há outra casta de cobras, a que os índios chamam tiopurana,

que são de quarenta e cinquenta palmos de comprido, que não

mordem nem fazem mal a gente nenhuma, e mantêm-se da caça

que tomam. Estas tomam os índios às mãos, quando são novas, e

prendem-nas em casa, onde as criam, e se fazem tão domésticas

que vão buscar comer ao mato, e tornam-se para casa, cuja carne

é muito saborosa.

Caninanas são outras cobras meãs na grandura, com a pele

preta nas costas e amarela na barriga, as quais criam no côncavo

de paus podres, e são muito peçonhentas, e os mordidos delas

morrem muito depressa, se lhes não acodem logo.

Boiubu quer dizer “cobra verde” que não são grandes, e criam-se

no campo, onde se mantêm com ratos que tomam. Estas também

mordem gente se podem, mas são muito peçonhentas, as quais se

enroscam com as lagartixas, ratos e com outros bichos com que se

atrevem, que também matam para comer.

Há outra casta de cobras, a que os índios chamam ubiracoá,

que são pequenas e de cor ruivaça, as quais andam sempre pelas

árvores, de onde mordem no rosto e pelos lugares altos das pessoas, e não se descem nunca ao chão; se não acodem a mordedura

desta com brevidade, é a sua peçonha tão fina que faz arrebentar o

sangue em três horas por todas as partes, de que o mordido morre

logo.

Urapiagaras são outras cobras, que andam pelas árvores salteando pássaros, e a comer-lhes os ovos nos ninhos, de que se

mantêm; as quais não são grandes, mas muito ligeiras.

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