Segunda parte - Capítulo CLXXIX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 254 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXXIX

Que trata de alguns costumes e trajes dos tupinaés.

Costumam entre os tupinaés trazer os homens os cabelos da

cabeça compridos até lhes cobrirem as orelhas, muito aparados

sobre elas, e desafogado por diante; e outros o trazem copado sobre as orelhas, como crenchas; e alguns tosquiam a dianteira até

as orelhas sobre pentem, por detrás o cabelo comprido; e a seu

modo, de uma maneira e outra fica muito afeiçoado.

São os tupinaés mais fracos de ânimo que os tupinambás, de

menos trabalho, de menos fé e verdade; são músicos de natureza,

e grandes cantores de chacotas, quase pelo modo dos tupinambás;

bailam, caçam e pescam como eles, e pelejam em saltos, como

eles; mas não são pescadores no mar, como se acham nele, pelo

não haverem em costume, por ser gente do sertão, e esmorecerem; e não pescam senão nos rios de água doce.

Estes tupinaés andaram antigamente correndo toda a costa

do Brasil, de onde foram sempre lançados do outro gentio, com

quem ficavam vizinhando, por suas ruins condições; do que ficaram mui odiados de todas as outras nações do gentio.

Traz esse gentio os beiços furados, e pedras neles e no rosto,

como os tupinambás; e, ainda, se fazem mais furos nele, e se fazem mais bizarros; e quando se enfeitam o fazem na forma dos

tupinambás, e trazem ao pescoço colares de dentes dos contrários

como eles, e na guerra usam dos mesmos tambores, trombetas,

buzinas que costumam trazer os tupinambás; os quais são muito

mais sujeitos ao pecado nefando do que são os tupinambás, e os

que servem de machos se prezam disso, e o tratam, quando se dizem seus louvores.

Quando este gentio anda algum caminho, ou se acha em parte

onde lhe falta fogo, esfregando um pau rijo que para isso trazem

com flechas fendidas, fazem acender esfregando muito com as

mãos até que se levanta labareda; o qual logo pega nas flexas, e

desta maneira se remedeiam; do que também se aproveitam os

tupinambás, quando têm necessidade de fogo.

Estes tupinaés são os fronteiros dos tupinambás, com os quais

foram sempre apertando até que os fizeram ir vizinhar com os

tapuias, com quem têm sempre guerra sem entenderem em outra coisa, da qual saem como lhes ordena a fortuna. Deste gentio

tupinaé há já muito pouco, em comparação do muito que houve,

o qual se consumiu com fomes e guerras que tiveram com seus vizinhos, de uma parte e da outra. Costumam estes índios nos seus

cantares tangerem com um canudo de uma cana de seis a sete

palmos de comprido, e tão grosso que cabe um braço, por grosso

que seja, por dentro dele; o qual canudo é aberto pela banda de

cima, e quando o tangem vão tocando com o fundo do canudo no

chão, e toa tanto como os seus tambores, da maneira que eles os

tangem.

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