Primeira parte - Capítulo XXXIII
Em que se declara a costa do Rio dos Ilhéus até o Rio Grande.
Para satisfazermos com o prometido, convém que digamos
que terra corre do Rio de São Jorge dos Ilhéus por diante, do qual,
a duas léguas está o Rio Corurupe. Deste rio a cinco léguas está
outro rio, que se chama Patipe, e em nenhum deles podem entrar
barcos, por não terem barra para isso, cuja costa é de praia e limpa,
e a terra por dentro baixa ao longo do mar. Deste rio ao Rio Grande
são sete léguas, o qual está em quinze graus e meio, e tem na boca
três moitas de mato que do mar parecem ilhas, por onde é muito
bom de conhecer. Na ponta da barra da banda do norte da parte
de fora tem bom abrigo para ancorarem navios da costa, os quais
entram neste rio se querem; em cujo canal na barra tem duas braças, depois uma e daí por diante três, quatro e cinco braças. Este
rio se navega por ele acima em barcos oito ou dez léguas; neste rio
será uma povoação muito proveitosa por ser muito grande e ter
grandes pescarias e muito marisco e caça, cuja terra é muito boa,
onde se darão todos os mantimentos que lhe plantarem; e corre-se
a costa deste Rio Grande ao dos Ilhéus norte-sul.
Este rio vem de muito longe e traz sempre muita água e grande correnteza, pelo qual vieram abaixo alguns homens dos que
foram à Serra das Esmeraldas com Antônio Dias Adorno, os quais
vieram em suas embarcações, a que chamam canoas, que são de
um pau que tem a casca muito dura e o mais muito mole, o qual
cavacam com qualquer ferramenta, de maneira que lhe deitam
todo o miolo fora, e fica somente a casca; e há destas árvores algumas tamanhas que fazem delas canoas que levam de vinte pessoas
para cima.
Sebastião Fernandes Tourinho, morador em Porto Seguro, com
certos companheiros entrou pelo sertão, onde andou alguns meses à ventura, sem saber por onde caminhava, e meteu-se tanto
pela terra adentro, que se achou em direito do Rio de Janeiro, o
que souberam pela altura do sol, que este Sebastião Fernandes sabia muito bem tomar, e por conhecerem a Serra dos Órgãos, que
cai sobre o Rio de Janeiro; e chegando ao campo grande acharam
alagoas e riachos que se metiam neste Rio Grande; e indo com
rosto ao noroeste, deram em algumas serras de pedras, por onde
caminharam obra de trinta léguas, e tornando a leste alguns dias
deram em uma aldeia de tupiniquins junto de um rio, que se chama Raso-Aguípe; e foram por ele abaixo com o rosto ao norte vinte e oito dias em canoas, nas quais andaram oitenta léguas. Este
rio tem grande correnteza, e entram nele dois rios, um da banda
do leste, e outro da banda do loeste, com os quais se vem meter
este Rio Raso-Aguípe no Rio Grande. E depois que entraram nele
navegaram nas suas canoas por ele abaixo vinte e quatro dias, nos
quais chegaram ao mar, vindo sempre com a proa ao loeste. E fazendo esta gente sua viagem, achou no sertão deste rio no mais
largo dele, que será em meio caminho do mar, vinte ilhas afastadas umas das outras uma légua, duas e três e mais; e acharam quarenta léguas de barra, pouco mais ou menos um sumidouro, que
vai por baixo da terra mais de uma légua, quando é no verão, que
no inverno traz tanta água que alaga tudo. Do sumidouro para
cima tem este rio grande fundo, e a partes tem poços, que têm seis
e sete braças, por onde se pode navegar em grandes embarcações;
quase toda a terra de longo dele é muito boa.