Segunda parte - Capítulo CXI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 186 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo CXI

Que trata das cobras de coral e das jereracas.

Pelos matos e ao redor das casas se criam umas cobras a que

os índios chamam jereracas; as maiores são de sete e oito palmos

de comprido, e são pardas e brancacentas nas costas, as quais se

põem às tardes ao longo dos caminhos esperando a gente que passa, e em lhes tocando com o pé lhes dão tal picada que, se lhes não

acodem logo com algum defensivo, não dura o mordido vinte e

quatro horas. Estas cobras se põem também em ramos de árvores

junto dos caminhos para morderem à gente, o que fazem muitas

vezes aos índios, e quando mordem pela manhã tem a peçonha

mais força, como a víbora; as quais mordem também as éguas e

vacas, do que morrem algumas, sem se sentir de quê, senão depois

que não tem mais remédio. Têm estas cobras nos dentes presas,

as quais mordem de ilhargas; e aconteceu na capitania dos Ilhéus

morder uma destas cobras um homem por cima da bota, e não

sentir coisa que lhe doesse, e zombou da cobra, mas ele morreu ao

outro dia; e vendendo-se o seu fato em leilão comprou outro homem as botas e morreu em vinte quatro horas com lhe incharem

as pernas; pelo que se buscaram as botas, e acharam nelas a ponta

do dente, como de uma agulha, que estava metida na bota; no que

se viu claro que estas jararacas têm a peçonha nos dentes. Essas

cobras se criam entre pedras e paus podres, e mudam a pele cada

ano; cuja carne os índios comem.

Ububocas são outras cobras assim chamadas do tamanho das

jararacas, mas mais delgadas, a que os portugueses chamam de coral, porque têm cobertas as peles de escamas grandes vermelhas e

quadradas, que parecem coral; e entre uma escama e outra vermelha, têm uma preta pequena. Estas cobras não remetem à gente,

mas se lhe tocam picam logo com os dentes dianteiros e são as

suas mordeduras mais peçonhentas que as da jareraca, e de maravilha escapa pessoa mordida delas. E quando estão enroscadas no

chão parece um ramal de corais; e houve homem que tomou uma

que estava dormindo, e meteu-a no seio, cuidando serem corais, e

não lhe fez mal; as quais criam debaixo de penhascos, e da rama

seca.

1/1
Menu

Fazer anotação