Segunda parte - Capítulo CXI
Que trata das cobras de coral e das jereracas.
Pelos matos e ao redor das casas se criam umas cobras a que
os índios chamam jereracas; as maiores são de sete e oito palmos
de comprido, e são pardas e brancacentas nas costas, as quais se
põem às tardes ao longo dos caminhos esperando a gente que passa, e em lhes tocando com o pé lhes dão tal picada que, se lhes não
acodem logo com algum defensivo, não dura o mordido vinte e
quatro horas. Estas cobras se põem também em ramos de árvores
junto dos caminhos para morderem à gente, o que fazem muitas
vezes aos índios, e quando mordem pela manhã tem a peçonha
mais força, como a víbora; as quais mordem também as éguas e
vacas, do que morrem algumas, sem se sentir de quê, senão depois
que não tem mais remédio. Têm estas cobras nos dentes presas,
as quais mordem de ilhargas; e aconteceu na capitania dos Ilhéus
morder uma destas cobras um homem por cima da bota, e não
sentir coisa que lhe doesse, e zombou da cobra, mas ele morreu ao
outro dia; e vendendo-se o seu fato em leilão comprou outro homem as botas e morreu em vinte quatro horas com lhe incharem
as pernas; pelo que se buscaram as botas, e acharam nelas a ponta
do dente, como de uma agulha, que estava metida na bota; no que
se viu claro que estas jararacas têm a peçonha nos dentes. Essas
cobras se criam entre pedras e paus podres, e mudam a pele cada
ano; cuja carne os índios comem.
Ububocas são outras cobras assim chamadas do tamanho das
jararacas, mas mais delgadas, a que os portugueses chamam de coral, porque têm cobertas as peles de escamas grandes vermelhas e
quadradas, que parecem coral; e entre uma escama e outra vermelha, têm uma preta pequena. Estas cobras não remetem à gente,
mas se lhe tocam picam logo com os dentes dianteiros e são as
suas mordeduras mais peçonhentas que as da jareraca, e de maravilha escapa pessoa mordida delas. E quando estão enroscadas no
chão parece um ramal de corais; e houve homem que tomou uma
que estava dormindo, e meteu-a no seio, cuidando serem corais, e
não lhe fez mal; as quais criam debaixo de penhascos, e da rama
seca.