Primeira parte - Capítulo LIX
Em que se declara a barra e povoações da capitania de São Vicente.
Está o rio e barra de São Vicente em altura de vinte e quatro
graus e meio, o qual rio tem a boca grande e muito aberta, onde
se diz a barra de Estêvão da Costa. E quem vem do mar em fora
para conhecer a barra, verá sobre ela uma ilha com um monte,
da feição de moela de galinha, com três mamilões. Por esta barra
entram naus de todo o porte, as quais ficam dentro do rio mui
seguras de todo o tempo, pelo qual entra a maré cercando a terra
de maneira que fica em ilha muito chegada à terra firme, e faz
este braço do rio muitas voltas. Na ponta desta barra, da banda
de leste, está a vila de Nossa Senhora da Conceição; e desta ponta
à outra, que se diz de Estêvão da Costa, se estende a barra de São
Vicente; e entrando por este rio acima está a terra toda povoada
de uma banda e da outra de fazendas mui frescas; e antes que cheguem à vila estão os engenhos dos Esquertes de Frandes e o de
José Adorno; e no rio está uma ilheta, além da qual, à mão direita, está a vila de São Vicente, que é a cabeça desta capitania. Pelo
sertão desta capitania nove léguas está a vila de São Paulo, onde
geralmente se diz “o campo”, na qual vila está um mosteiro dos
padres da companhia, e de redor dela quatro ou cinco léguas estão
quatro aldeias de índios forros cristãos, que os padres doutrinam;
e servem-se desta vila para o mar pelo esteiro do Ramalho. Tem
vila mais dois ou três engenhos de açúcar na ilha e terra firme;
mas todos fazem pouco açúcar, por não irem lá navios que o tragam. E aparta-se esta capitania de São Vicente, de Martim Afonso
de Sousa, com a de Santo Amaro, de seu irmão Pedro Lopes, pelo
esteiro da vila de Santos, donde se começa a capitania da vila de
Santo Amaro.