Segunda parte - Capítulo CL Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 225 de 271
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo CL

Em que se declara o modo e a linguagem dos tupinambás.

Ainda que os tupinambás se dividissem em bandos, e se inimizassem uns com outros, todos falam uma língua que é quase

geral pela costa do Brasil, e todos têm uns costumes em seu modo

de viver e gentilidades; os quais não adoram nenhuma coisa,

nem têm nenhum conhecimento da verdade, nem sabem mais

que há morrer e viver; e qualquer coisa que lhes digam, se lhes

mete na cabeça, e são mais bárbaros que quantas criaturas Deus

criou. Têm muita graça quando falam, mormente as mulheres;

são mui compendiosas na forma da linguagem, e muito copiosos no seu orar; mas faltam-lhes três letras das do ABC, que são

F, L, R grande ou dobrado, coisa muito para se notar; porque, se

não têm F, é porque não têm fé em nenhuma coisa que adorem;

nem os nascidos entre os cristãos e doutrinados pelos padres da

Companhia têm fé em Deus Nosso Senhor, nem têm verdade,

nem lealdade a nenhuma pessoa que lhes faça bem. E se não têm

L na sua pronunciação, é porque não têm lei alguma que guardar,

nem preceitos para se governarem; e cada um faz lei a seu modo,

e ao som da sua vontade; sem haver entre eles leis com que se

governem, nem têm leis uns com os outros. E se não têm esta letra

R na sua pronunciação, é porque não têm rei que os reja, e a quem

obedeçam, nem obedecem a ninguém, nem ao pai o filho, nem o

filho ao pai, e cada um vive ao som da sua vontade; para dizerem

Francisco dizem Pancico, para dizerem Lourenço dizem Rorenço,

para dizerem Rodrigo dizem Rodigo; e por este modo pronunciam

todos os vocábulos em que entram essas três letras.

1/1
Menu

Fazer anotação