Segunda parte - Capítulo CL
Em que se declara o modo e a linguagem dos tupinambás.
Ainda que os tupinambás se dividissem em bandos, e se inimizassem uns com outros, todos falam uma língua que é quase
geral pela costa do Brasil, e todos têm uns costumes em seu modo
de viver e gentilidades; os quais não adoram nenhuma coisa,
nem têm nenhum conhecimento da verdade, nem sabem mais
que há morrer e viver; e qualquer coisa que lhes digam, se lhes
mete na cabeça, e são mais bárbaros que quantas criaturas Deus
criou. Têm muita graça quando falam, mormente as mulheres;
são mui compendiosas na forma da linguagem, e muito copiosos no seu orar; mas faltam-lhes três letras das do ABC, que são
F, L, R grande ou dobrado, coisa muito para se notar; porque, se
não têm F, é porque não têm fé em nenhuma coisa que adorem;
nem os nascidos entre os cristãos e doutrinados pelos padres da
Companhia têm fé em Deus Nosso Senhor, nem têm verdade,
nem lealdade a nenhuma pessoa que lhes faça bem. E se não têm
L na sua pronunciação, é porque não têm lei alguma que guardar,
nem preceitos para se governarem; e cada um faz lei a seu modo,
e ao som da sua vontade; sem haver entre eles leis com que se
governem, nem têm leis uns com os outros. E se não têm esta letra
R na sua pronunciação, é porque não têm rei que os reja, e a quem
obedeçam, nem obedecem a ninguém, nem ao pai o filho, nem o
filho ao pai, e cada um vive ao som da sua vontade; para dizerem
Francisco dizem Pancico, para dizerem Lourenço dizem Rorenço,
para dizerem Rodrigo dizem Rodigo; e por este modo pronunciam
todos os vocábulos em que entram essas três letras.