Segunda parte - Capítulo CXLIV
Que trata da natureza e feições dos peixes de água doce.
Não menos são de notar os pescados que se criam nos rios de
água doce da Bahia, que os que se criam no mar dela; do que é bem
que digamos daqui por diante.
E comecemos dos eirós que há nestes rios, que se criam debaixo das pedras, a que os índios chamam mocim, os quais são da
feição e sabor das de Portugal.
Tareiras são peixes tamanhos como mugens, e maiores; mas
são pretos, da cor dos enxarrocos, e têm muitas espinhas, os quais
se tomam à linha, nos rios de água doce; têm boas ovas e nenhuma escama; do que há grandes pescarias.
Juquiás chamam os índios a outros peixes da feição dos safios
da Espanha, mas menores; os quais se tomam às mãos, entre as
pedras; o qual peixe não tem escama, e é mui saboroso.
Tamuatás são outros peixes destes rios que se não escamam,
por terem a casca mui grossa e dura, e que se lhe tira fora inteira
depois de assados ou cozidos, os quais se tomam à linha; e é peixe
miúdo, muito gostosos e sadio.
Piranha quer dizer “tesoura”; é peixe de rios grandes, e onde o
há, é muito; e é da feição dos sargos, e maior, de cor mui prateada;
este peixe é muito gordo e gostoso, e toma-se à linha; mas tem tais
dentes que corta o anzol cerce; pelo que os índios não se atrevem
a meter na água onde há este peixe, porque remete a eles muito
e morde-os cruelmente; se lhes alcançam os genitais, levam-lhos
cerce, e o mesmo faz à caça que atravessa os rios onde este peixe
anda.
Querico é outro peixe de água doce da feição das savelhas, e
tem as mesmas espinhas e muitas, e é muito estimado e saboroso,
o qual peixe se toma à linha.
Cria-se nestes rios outro peixe, a que os índios chamam uacari,
que são do tamanho e feição das choupas de Portugal, mas têm o
rabo agudo, a cabeça metida nos ombros e duas pontas como cornos; e têm a pele grossa, a qual os índios têm por contrapeçonha
para mordeduras de cobras e outros bichos, o qual se toma a cana.
Tomam-se nestes rios outros peixes, a que os índios chamam
piabas, que são pequenos, da feição dos pachões do Rio de Lisboa,
o qual é peixe saboroso e de poucas espinhas.
Também se tomam à cana nestes rios outros peixes a que os
índios chamam maturaquê, que são pequenos, largos e muito
saborosos.
Há outros peixes nos rios, a que os índios chamam guarara, que
são como ruivacas, e têm a barriga grande, os quais se tomam à
cana.
Acarás são outros peixes do rio, tamanhos como bezugos, mas
têm o focinho mais comprido, que é peixe muito saboroso; o qual
se toma à cana.
Há outras muitas castas de peixe nos rios de água doce, que
para se escrever houvera-se de tomar muito de propósito mui largas informações, mas por ora deve de bastar o que está dito para
que possamos dizer de algum marisco que se cria na água doce.