Segunda parte - Capítulo XIII
Em que se declara o como se tratam os moradores da cidade do
Salvador, e algumas qualidades suas.
Na cidade do Salvador e seu termo há muitos moradores ricos
de fazendas de raiz, peças de prata e ouro, jaezes de cavalos e alfaias de casa, entanto que há muitos homens que têm dois e três
mil cruzados em joias de ouro e prata lavrada. Há na Bahia mais
de cem moradores que têm cada ano de mil cruzados até cinco
mil de renda, e outros que têm mais, cujas fazendas valem vinte
mil até cinquenta e sessenta mil cruzados, e além disso, tratam
suas pessoas mui honradamente, com muitos cavalos, criados e
escravos, e com vestidos demasiados, especialmente as mulheres,
porque não vestem senão sedas, por a terra não ser fria, no que
fazem grandes despesas, mormente entre a gente de menor condição; porque qualquer peão anda com calções e gibão de cetim
ou damasco, e trazem as mulheres com vasquinhas e gibões do
mesmo, os quais, como têm qualquer possibilidade, têm suas casas mui bem concertadas e na sua mesa serviço de prata, e trazem
suas mulheres mui bem ataviadas de joias de ouro.
Tem esta cidade catorze peças de artilharia grossa, e quarenta,
pouco mais ou menos, de artilharia miúda; a artilharia grossa está
assentada nas estâncias atrás declaradas, e em outra que está na
ponta do Padrão para defender a entrada da barra aos navios dos
corsários, se a cometerem, donde não lhe podem fazer mais dano
que afastá-los da carreira, para que não possam tomar o porto do
primeiro bordo, porque é a barra muito grande e podem afastar as
naus que quiserem, sem lhes a artilharia fazer nojo.