Segunda parte - Capítulo CLXIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 238 de 271
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Segunda parte - Capítulo CLXIII

Que trata como os tupinambás agasalham os hóspedes.

Quando entra algum hóspede em casa dos tupinambás, logo

o dono do lanço da casa, onde ele chega, lhe dá a sua rede e a

mulher lhe põe de comer diante, sem lhe perguntarem quem é,

nem de onde vem, nem o que quer; e quando o hóspede come,

lhe perguntam pela sua língua: “Vieste já?” e ele responde “Sim”;

as quais boas-vindas lhe vêm dar todos os que o querem fazer, e

depois disso praticam muito devagar. E quando algum hóspede

estrangeiro entra em alguma destas aldeias, vem pregando, e

assim anda correndo toda a aldeia até quando dá com a casa do

principal, e sem falar a ninguém deita-se numa qualquer que acha

mais à mão, onde lhe põem logo de comer, e quando acaba de

comer, lhe manda o principal armar uma rede junto da porta do

seu lanço de uma banda, e ele arma a sua da outra banda, ficando

a porta no meio para caminho de quem quiser entrar, e assim os

da aldeia lhe vêm dar as boas-vindas, como acima está declarado;

e neste lugar se põe a praticar o principal com o hóspede muito

devagar, em redor dos quais se vêm assentar os índios da aldeia,

que querem ouvir novas, onde ninguém responde, nem pergunta

coisa alguma, até que o principal acabe de falar, e como dá fim

às práticas, lhe diz que descanse de seu vagar; e depois, se o principal despede do hóspede, vêm outros falar com ele, para saber

novas daquelas partes de onde o hóspede vem; e ao outro dia se

ajunta este principal em outra casa, onde se ajuntam os anciãos

da aldeia, e praticam sobre a vinda do índio estrangeiro, e sobre as

coisas que contou de onde vinha; e lançam suas contas se vem de

bom título ou não; e se é seu contrário, de maravilha escapa que

não o matem, e lhe façam seu ofício com muita festa e regozijo;

ao qual hóspede choram as velhas também antes que coma, como

atrás fica declarado.

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