Segunda parte - Capítulo CLXIII
Que trata como os tupinambás agasalham os hóspedes.
Quando entra algum hóspede em casa dos tupinambás, logo
o dono do lanço da casa, onde ele chega, lhe dá a sua rede e a
mulher lhe põe de comer diante, sem lhe perguntarem quem é,
nem de onde vem, nem o que quer; e quando o hóspede come,
lhe perguntam pela sua língua: “Vieste já?” e ele responde “Sim”;
as quais boas-vindas lhe vêm dar todos os que o querem fazer, e
depois disso praticam muito devagar. E quando algum hóspede
estrangeiro entra em alguma destas aldeias, vem pregando, e
assim anda correndo toda a aldeia até quando dá com a casa do
principal, e sem falar a ninguém deita-se numa qualquer que acha
mais à mão, onde lhe põem logo de comer, e quando acaba de
comer, lhe manda o principal armar uma rede junto da porta do
seu lanço de uma banda, e ele arma a sua da outra banda, ficando
a porta no meio para caminho de quem quiser entrar, e assim os
da aldeia lhe vêm dar as boas-vindas, como acima está declarado;
e neste lugar se põe a praticar o principal com o hóspede muito
devagar, em redor dos quais se vêm assentar os índios da aldeia,
que querem ouvir novas, onde ninguém responde, nem pergunta
coisa alguma, até que o principal acabe de falar, e como dá fim
às práticas, lhe diz que descanse de seu vagar; e depois, se o principal despede do hóspede, vêm outros falar com ele, para saber
novas daquelas partes de onde o hóspede vem; e ao outro dia se
ajunta este principal em outra casa, onde se ajuntam os anciãos
da aldeia, e praticam sobre a vinda do índio estrangeiro, e sobre as
coisas que contou de onde vinha; e lançam suas contas se vem de
bom título ou não; e se é seu contrário, de maravilha escapa que
não o matem, e lhe façam seu ofício com muita festa e regozijo;
ao qual hóspede choram as velhas também antes que coma, como
atrás fica declarado.