Segunda parte - Capítulo XLIX
Daqui por diante se dirá das árvores de fruto, começando nos cajus
e cajuís.
Convém tratar daqui por diante das árvores de fruto naturais
da Bahia, águas vertentes ao mar e à vista dele; e demos o primeiro
lugar e capítulo por si aos cajueiros, pois é uma árvore de muita
estima, e há tantos ao longo do mar e na vista dele. Estas árvores
são como figueiras grandes, têm a casca da mesma cor, e a madeira
branca e mole como figueira, cujas folhas são da feição da cidreira
e mais macias. As folhas dos olhos novos são vermelhas, muito
brandas e frescas, a flor é como a do sabugueiro, de bom cheiro,
mas muito breve. A sombra destas árvores é muito fria e fresca, o
fruto é formosíssimo; algumas árvores dão fruto vermelho e comprido, outras o dão da mesma cor e redondo.
Há outra casta que dá o fruto da mesma feição, mas a partes
vermelho e noutras de cor almecegada; há outras árvores que dão
o fruto amarelo e comprido como peros d’El-Rei, mas são em tudo
maiores que os peros e da mesma cor.
Há outras árvores que dão este fruto redondo, e uns e outros
são muito gostosos, sumarentos e de suave cheiro, os quais se desfazem todos em água.
A natureza destes cajus é fria, e são medicinais para doentes
de febres, e para quem tem fastio, os quais fazem bom estômago e
muitas pessoas lhes tomam o sumo pelas manhãs em jejum, para
conservação do estômago, e fazem bom bafo a quem os come pela
manhã, e por mais que se coma deles não fazem mal a nenhuma
hora do dia, e são de tal digestão que em dois credos se esmoem.
Os cajus silvestres travam junto do olho que se lhes bota fora,
mas os que se criam nas roças e nos quintais comem-se todos sem
terem que lançar fora por não travarem. Fazem-se estes cajus de
conserva, que é muito suave, e para se comerem logo cozidos no
açúcar cobertos de canela não têm preço. Do sumo desta fruta
faz o gentio vinho, com que se embebeda, que é de bom cheiro e
saboroso.
É para notar que no olho deste pomo tão formoso cria a natureza outra fruta, parda, a que chamamos castanha, que é da feição e
tamanho de um rim de cabrito, a qual castanha tem a casca muito
dura e de natureza quentíssima e o miolo que tem dentro; deita
essa casca um óleo tão forte que onde toca na carne faz empola, o
qual óleo é da cor de azeite, e tem o cheiro mui forte. Tem esta castanha o miolo branco, tamanho como o de uma amêndoa grande,
a qual é muito saborosa, e quer arremedar no sabor aos pinhões,
mas é de muita vantagem. Destas castanhas fazem as mulheres
todas as conservas doces que costumam fazer com as amêndoas, o
que tem graça na suavidade do sabor; o miolo destas castanhas, se
está muitos dias fora da casca, cria ranço do azeite que tem em si;
quando se quebram estas castanhas para lhes tirarem o miolo, faz
o azeite que tem na casca pelar as mãos a quem as quebra.
Estas árvores se dão em areia e terras fracas, e se as cortam tornam logo a rebentar, o que fazem poucas árvores nestas partes.
Cria-se nestas árvores uma resina muito alva, da qual as mulheres se aproveitam para fazerem alcorce de açúcar em lugar de
alquitira. Nascem estas árvores das castanhas, e em dois anos se
fazem mais altas que um homem, e no mesmo tempo dão fruto,
o qual, enquanto as árvores são novas, é avantajado no cheiro e
sabor. Há outra casta desta fruta, que os índios chamam cajuí, cuja
árvore é nem mais nem menos que a dos cajus, senão quanto é
muito menor, que lhe chega um homem do chão ao mais alto dela
a colher-lhe o fruto, que é amarelo, mas não é maior que as cerejas grandes, e tem maravilhoso sabor com a pontinha de azedo, e
criam também sua castanha na ponta, as quais árvores se não dão
ao longo do mar, mas nas campinas do sertão, além da catinga.