Segunda parte - Capítulo XLIX Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 124 de 271
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Segunda parte - Capítulo XLIX

Daqui por diante se dirá das árvores de fruto, começando nos cajus

e cajuís.

Convém tratar daqui por diante das árvores de fruto naturais

da Bahia, águas vertentes ao mar e à vista dele; e demos o primeiro

lugar e capítulo por si aos cajueiros, pois é uma árvore de muita

estima, e há tantos ao longo do mar e na vista dele. Estas árvores

são como figueiras grandes, têm a casca da mesma cor, e a madeira

branca e mole como figueira, cujas folhas são da feição da cidreira

e mais macias. As folhas dos olhos novos são vermelhas, muito

brandas e frescas, a flor é como a do sabugueiro, de bom cheiro,

mas muito breve. A sombra destas árvores é muito fria e fresca, o

fruto é formosíssimo; algumas árvores dão fruto vermelho e comprido, outras o dão da mesma cor e redondo.

Há outra casta que dá o fruto da mesma feição, mas a partes

vermelho e noutras de cor almecegada; há outras árvores que dão

o fruto amarelo e comprido como peros d’El-Rei, mas são em tudo

maiores que os peros e da mesma cor.

Há outras árvores que dão este fruto redondo, e uns e outros

são muito gostosos, sumarentos e de suave cheiro, os quais se desfazem todos em água.

A natureza destes cajus é fria, e são medicinais para doentes

de febres, e para quem tem fastio, os quais fazem bom estômago e

muitas pessoas lhes tomam o sumo pelas manhãs em jejum, para

conservação do estômago, e fazem bom bafo a quem os come pela

manhã, e por mais que se coma deles não fazem mal a nenhuma

hora do dia, e são de tal digestão que em dois credos se esmoem.

Os cajus silvestres travam junto do olho que se lhes bota fora,

mas os que se criam nas roças e nos quintais comem-se todos sem

terem que lançar fora por não travarem. Fazem-se estes cajus de

conserva, que é muito suave, e para se comerem logo cozidos no

açúcar cobertos de canela não têm preço. Do sumo desta fruta

faz o gentio vinho, com que se embebeda, que é de bom cheiro e

saboroso.

É para notar que no olho deste pomo tão formoso cria a natureza outra fruta, parda, a que chamamos castanha, que é da feição e

tamanho de um rim de cabrito, a qual castanha tem a casca muito

dura e de natureza quentíssima e o miolo que tem dentro; deita

essa casca um óleo tão forte que onde toca na carne faz empola, o

qual óleo é da cor de azeite, e tem o cheiro mui forte. Tem esta castanha o miolo branco, tamanho como o de uma amêndoa grande,

a qual é muito saborosa, e quer arremedar no sabor aos pinhões,

mas é de muita vantagem. Destas castanhas fazem as mulheres

todas as conservas doces que costumam fazer com as amêndoas, o

que tem graça na suavidade do sabor; o miolo destas castanhas, se

está muitos dias fora da casca, cria ranço do azeite que tem em si;

quando se quebram estas castanhas para lhes tirarem o miolo, faz

o azeite que tem na casca pelar as mãos a quem as quebra.

Estas árvores se dão em areia e terras fracas, e se as cortam tornam logo a rebentar, o que fazem poucas árvores nestas partes.

Cria-se nestas árvores uma resina muito alva, da qual as mulheres se aproveitam para fazerem alcorce de açúcar em lugar de

alquitira. Nascem estas árvores das castanhas, e em dois anos se

fazem mais altas que um homem, e no mesmo tempo dão fruto,

o qual, enquanto as árvores são novas, é avantajado no cheiro e

sabor. Há outra casta desta fruta, que os índios chamam cajuí, cuja

árvore é nem mais nem menos que a dos cajus, senão quanto é

muito menor, que lhe chega um homem do chão ao mais alto dela

a colher-lhe o fruto, que é amarelo, mas não é maior que as cerejas grandes, e tem maravilhoso sabor com a pontinha de azedo, e

criam também sua castanha na ponta, as quais árvores se não dão

ao longo do mar, mas nas campinas do sertão, além da catinga.

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