Segunda parte - Capítulo LXXV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 150 de 271
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Segunda parte - Capítulo LXXV

Em que se apontam algumas árvores que dão frutos silvestres que se

não comem.

Nos matos se criam umas árvores de honesta grandura, a que

os índios chamam comedoí, de cuja madeira se não faz conta.

Esta árvore dá umas bainhas como feijões, meio vermelhos e

meio pretos mui duros, de finas cores, que é a semente de que as

árvores nascem, os quais servem para tentos, e são para isso mui

estimados.

Araticurana é uma árvore do tamanho e feição do marmeleiro,

as quais se criam nos alagadiços, onde se ajunta a água doce com

a salgada, cuja madeira é mole e lisa que se esfola toda em lhe

puxando pela casca. Dão estas árvores um fruto tamanho como

marmelos, lavrado pela casca, como pinha, e muito liso, o qual arregoa quando está maduro, e cheira muito bem. Este fruto comem

os índios a medo, porque têm para si que quando os caranguejos

da terra fazem mal, que é por comerem este fruto naquele tempo.

Anhangaquiabo quer dizer “pente do diabo”; é árvore de bom

tamanho, cujo fruto são umas bainhas grandes; tem dentro de si

uma coisa branca e dura, afeiçoada como pente, de que os gentios

se aproveitavam antes de comunicarem com os portugueses e se

valerem dos seus pentes.

Cuieíba é uma árvore tamanha como nogueira, e tem a folha

como nogueira, a qual se não cria em ruim terra, e dá umas flores

brancas grandes. Da madeira se não trata, porque as não cortam

os índios, por estimarem muito o seu fruto, que é como melões,

maiores e menores, de feição redonda e comprida, o qual fruto não

se dá entre as folhas, como as outras árvores, senão pelo tronco da

árvore e pelos braços dela, cada um por si; estando esta fruta na árvore, é da cor dos cabaços verdes, e quando os colhem, cortam-nos

pelo meio ao comprido, e lançam-lhe fora o miolo, que é como o

dos cabaços; e vão curando estas peças até se fazerem duas, dando-

-lhe por dentro uma tinta preta e por fora amarela, que se não tira

nunca; ao que os índios chamam cuias, que lhes servem de pratos,

escudelas, púcaros, taças e de outras coisas.

Há outras árvores meãs, a que os índios chamam jatuaíba, cuja

madeira é muito pesada, das quais cai a folha cada ano, e torna a

rebentar de novo. Esta árvore dá umas frutas brancas, do tamanho

e feição de azeitonas cordovesas.

Pelo sertão se criam umas árvores a que os índios chamam beribebas, que dão um fruto do tamanho e feição de noz-moscada, o

qual amaruja e requeima como ela.

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