Segunda parte - Capítulo LXXV
Em que se apontam algumas árvores que dão frutos silvestres que se
não comem.
Nos matos se criam umas árvores de honesta grandura, a que
os índios chamam comedoí, de cuja madeira se não faz conta.
Esta árvore dá umas bainhas como feijões, meio vermelhos e
meio pretos mui duros, de finas cores, que é a semente de que as
árvores nascem, os quais servem para tentos, e são para isso mui
estimados.
Araticurana é uma árvore do tamanho e feição do marmeleiro,
as quais se criam nos alagadiços, onde se ajunta a água doce com
a salgada, cuja madeira é mole e lisa que se esfola toda em lhe
puxando pela casca. Dão estas árvores um fruto tamanho como
marmelos, lavrado pela casca, como pinha, e muito liso, o qual arregoa quando está maduro, e cheira muito bem. Este fruto comem
os índios a medo, porque têm para si que quando os caranguejos
da terra fazem mal, que é por comerem este fruto naquele tempo.
Anhangaquiabo quer dizer “pente do diabo”; é árvore de bom
tamanho, cujo fruto são umas bainhas grandes; tem dentro de si
uma coisa branca e dura, afeiçoada como pente, de que os gentios
se aproveitavam antes de comunicarem com os portugueses e se
valerem dos seus pentes.
Cuieíba é uma árvore tamanha como nogueira, e tem a folha
como nogueira, a qual se não cria em ruim terra, e dá umas flores
brancas grandes. Da madeira se não trata, porque as não cortam
os índios, por estimarem muito o seu fruto, que é como melões,
maiores e menores, de feição redonda e comprida, o qual fruto não
se dá entre as folhas, como as outras árvores, senão pelo tronco da
árvore e pelos braços dela, cada um por si; estando esta fruta na árvore, é da cor dos cabaços verdes, e quando os colhem, cortam-nos
pelo meio ao comprido, e lançam-lhe fora o miolo, que é como o
dos cabaços; e vão curando estas peças até se fazerem duas, dando-
-lhe por dentro uma tinta preta e por fora amarela, que se não tira
nunca; ao que os índios chamam cuias, que lhes servem de pratos,
escudelas, púcaros, taças e de outras coisas.
Há outras árvores meãs, a que os índios chamam jatuaíba, cuja
madeira é muito pesada, das quais cai a folha cada ano, e torna a
rebentar de novo. Esta árvore dá umas frutas brancas, do tamanho
e feição de azeitonas cordovesas.
Pelo sertão se criam umas árvores a que os índios chamam beribebas, que dão um fruto do tamanho e feição de noz-moscada, o
qual amaruja e requeima como ela.