Primeira parte - Capítulo XIII Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 14 de 271
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Primeira parte - Capítulo XIII

Que trata da vida e costumes do gentio potiguar.

Não é bem que passemos já do Rio da Paraíba, onde se acaba o

limite por onde reside o gentio potiguar, que tanto mal tem feito aos moradores das capitanias de Pernambuco e Itamaracá, e a

gente dos navios que se perderam pela costa da Paraíba até o Rio

do Maranhão. Este gentio senhoreia esta costa do Rio Grande até

o da Paraíba, onde se confinaram antigamente com outro gentio,

que chamam os caetés, que são seus contrários, e se faziam crudelíssima guerra uns aos outros, e se fazem ainda agora pela banda

do sertão onde agora vivem os caetés, e pela banda do Rio Grande

são fronteiros dos tapuias, que é a gente mais doméstica, com

quem estão às vezes de guerra e às vezes de paz, e se ajudam uns

aos outros contra os tabajaras, que vizinham com eles pela parte

do sertão. Costumam estes potiguares não perdoarem a nenhum

dos contrários que cativam, porque os matam e comem logo. Este

gentio é de má estatura, baços de cor, como todo o outro gentio;

não deixam crescer nenhuns cabelos no corpo senão os da cabeça,

porque em eles nascendo os arrancam logo. Falam a língua dos tupinambás e caetés; têm os mesmos costumes e gentilidades, o que

declaramos ao diante no capítulo dos tupinambás. Este gentio é

muito belicoso, guerreiro e atraiçoado, e amigo dos franceses, a

quem faz sempre boa companhia, e, industriado deles, inimigo

dos portugueses. São grandes lavradores dos seus mantimentos,

de que estão sempre mui providos, e são caçadores bons e tais

flecheiros que não erram flechada que atirem. São grandes pescadores de linha, assim no mar como nos rios de água doce. Cantam,

bailam, comem e bebem pela ordem dos tupinambás, onde se declarará miudamente sua vida e costumes, que é quase o geral de

todo o gentio da costa do Brasil.

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