Primeira parte - Capítulo XIII
Que trata da vida e costumes do gentio potiguar.
Não é bem que passemos já do Rio da Paraíba, onde se acaba o
limite por onde reside o gentio potiguar, que tanto mal tem feito aos moradores das capitanias de Pernambuco e Itamaracá, e a
gente dos navios que se perderam pela costa da Paraíba até o Rio
do Maranhão. Este gentio senhoreia esta costa do Rio Grande até
o da Paraíba, onde se confinaram antigamente com outro gentio,
que chamam os caetés, que são seus contrários, e se faziam crudelíssima guerra uns aos outros, e se fazem ainda agora pela banda
do sertão onde agora vivem os caetés, e pela banda do Rio Grande
são fronteiros dos tapuias, que é a gente mais doméstica, com
quem estão às vezes de guerra e às vezes de paz, e se ajudam uns
aos outros contra os tabajaras, que vizinham com eles pela parte
do sertão. Costumam estes potiguares não perdoarem a nenhum
dos contrários que cativam, porque os matam e comem logo. Este
gentio é de má estatura, baços de cor, como todo o outro gentio;
não deixam crescer nenhuns cabelos no corpo senão os da cabeça,
porque em eles nascendo os arrancam logo. Falam a língua dos tupinambás e caetés; têm os mesmos costumes e gentilidades, o que
declaramos ao diante no capítulo dos tupinambás. Este gentio é
muito belicoso, guerreiro e atraiçoado, e amigo dos franceses, a
quem faz sempre boa companhia, e, industriado deles, inimigo
dos portugueses. São grandes lavradores dos seus mantimentos,
de que estão sempre mui providos, e são caçadores bons e tais
flecheiros que não erram flechada que atirem. São grandes pescadores de linha, assim no mar como nos rios de água doce. Cantam,
bailam, comem e bebem pela ordem dos tupinambás, onde se declarará miudamente sua vida e costumes, que é quase o geral de
todo o gentio da costa do Brasil.