Segunda parte - Capítulo LXV Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 140 de 271
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Segunda parte - Capítulo LXV

Que trata das qualidades do pequi e de outras madeiras reais.

Pequi é uma árvore grande que se dá perto do mar, em terras

baixas, úmidas e fracas; acham-se muitas dessas árvores de quarenta e cinquenta palmos de roda, cuja madeira é parda, estopenta,

muito pesada, de que se fazem gangorras, mesas, virgens e esteios

para engenhos, a qual dura sem apodrecer para fim dos fins, ainda

que esteja lançada sobre a terra ao sol e à chuva. Quando lavram

esta madeira, cheira a vinagre, e sempre que se tiram dela os cavacos molhados, ainda que esteja cortada de cem anos, e já viu meter

um prego por uma gangorra, que havia dezesseis anos que estava

debaixo da telha de um engenho, e tanto que o prego começou a

entrar para dentro, começou a rebentar pelo mesmo furo um torno de água em fio que correu até o chão, o qual cheirava a vinagre;

e se metem os cavacos desta madeira no fogo, em quatro horas

não pega neles, e já quando pega não fazem brasa, nem levantam

labareda. É esta madeira tão pesada que em a deitando na água

se vai ao fundo, da qual se fazem bons liames e outras obras para

barcas grandes e navios.

Guaparaíba é outra árvore real muito grande, de que se acham

muitas de trinta e quarenta palmos de roda, cuja madeira é vermelha e mui fixa, que nunca se viu podre; de que se fazem gangorras,

mesas, virgens e esteios para engenhos e outras obras; e acham-se

muitas árvores tão compridas desta casta que, cortadas direito,

o grosso dá vigas de oitenta a cem palmos de comprido, fora o

delgado que fica no mato de que se fazem frechais e tirantes dos

engenhos. Estas árvores são naturais de várzeas de areia, vizinhas

do salgado; e são tão pesadas que, em lançando a madeira na água,

se vai logo ao fundo.

Há outras árvores também naturais de várzeas de areia, a que o

gentio chama jutaipeba, cuja madeira é vermelhaça, e muito fixa,

que nunca apodrece; e é muito dura ao lavrar; acham-se muitas

árvores desta casta de cinquenta a sessenta palmos de roda; e pela

maior parte estas grandes são ocas por dentro; mas há outras de

honesta grandeza, maciças, de que se fazem gangorras, mesas,

virgens, esteios e outras obras de engenhos, como são os eixos.

Não são estas árvores muito altas, por se desordenarem pelo

alto, lançando grandes troncos; mas tiram-se delas gangorras de

cinquenta a sessenta palmos de comprido, e a madeira é boa de

lavrar, ainda que seja muito dura e tão pesada que se vai na água

ao fundo.

Sabucaí é outra árvore real que nunca apodreceu, assim debaixo da terra como sobre ela, de cujo fruto tratamos atrás, cuja

madeira é vermelhaça, dura e tão pesada que se vai ao fundo; da

qual se acham grandes árvores, de que se fazem gangorras, mesas,

eixos, fusos, virgens, esteios e outras obras dos engenhos. Quando

se cortam estas árvores, tinem nelas os machados como se dessem

por ferro, onde se quebram muito.

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