Segunda parte - Capítulo XLVI
Em que se apontam os legumes que se dão na Bahia.
Pois que até aqui tratamos dos mantimentos naturais da terra
da Bahia, é bem que digamos dos legumes que se nela criam. E
comecemos pelas favas, que os índios chamam comendá, as quais
são muito alvas, e do tamanho e maiores que as de Évora em
Portugal; mas são delgadas e amassadas, como os figos passados.
Há outras favas, meio brancas e meio pretas, mas são pequenas; e estas favas se plantam a mão na entrada do inverno, e quando nascem põe-se ao pé de cada um um pau, por onde atrepam,
como fazem em Portugal às ervilhas; e, se têm por onde atrepar,
fazem grande ramada; a folha é como a dos feijões da Espanha,
mas maior; a flor é branca; começam a dar a novidade no fim do
inverno e dura mais de três meses. Estas favas são, em verdes, mui
saborosas, e cozem-se com as cerimônias que se costumam em
Portugal, e são reimosas como as do reino; e dão em cada bainha
quatro e cinco favas, e depois de secas se cozem muito bem, e não
criam bichos, como as da Espanha, e são muito melhores de cozer;
e de uma maneira e de outra fazem muita vantagem no sabor às
de Portugal, assim as declaradas como a outra casta de favas, que
são brancas e pintadas de pontos negros.
Dão-se nesta terra infinidade de feijões naturais dela, uns são
brancos, outros pretos, outros vermelhos, e outros pintados de
branco e preto, os quais se plantam a mão, e como nascem põe-se-
-lhe a cada pé um pau, por onde atrepam, como se faz às ervilhas, e
sobem de maneira para cima que fazem deles latadas nos quintais,
e cada pé dá infinidade de feijões, os quais são da mesma feição
que os da Espanha, mas têm mais compridas bainhas, e a folha
e flor como as ervilhas; cozem-se estes feijões sendo secos, como
em Portugal, e são mui saborosos, e enquanto são verdes cozem-se
com a casca como fazem às ervilhas, e são mui desenfastiados.
Chamam os índios jerimus às abóboras-da-quaresma, que são
naturais desta terra, das quais há dez ou doze castas, cada uma
de sua feição; e plantam-se duas vezes no ano, em terra úmida e
solta, as quais se estendem muito pelo chão, e dá cada aboboreira
muita soma; mas não são tamanhas como as da casta de Portugal.
Costuma o gentio cozer e assar estas abóboras inteiras por lhe não
entrar água dentro, e depois de cozidas as cortam como melões, e
lhes deitam as pevides fora, e são assim mais saborosas que cozidas em talhadas, e curam-se no fumo para durarem todo o ano.
As que em Portugal chamamos cabaços, chama o gentio pela
sua língua geremuiê, das quais têm entre si muitas castas de diferentes feições, tirando as abóboras compridas, de que dissemos
atrás. Essas abóboras ou cabaços semeia o gentio para fazer delas
vasilhas para seu uso, as quais não costuma comer, mas deixam -
-nas estar nas aboboreiras até se fazerem duras, e como estão
de vez, curam-nas no fumo, de que fazem depois vasilhas para
acarretarem água, por outras pequenas bebem, outras meias levam às costas cheias de água quando caminham; e há alguns destes cabaços tamanhos que levam dois almudes e mais, nos quais
guardam as sementes que hão de plantar; e costumam também
cortar esses cabaços em verdes, como estão duros, pelo meio, e
depois de curadas estas metades servem-lhes de gamelas, e outros
despejos, e as metades dos pequenos servem-lhes de escudelas, e
dão-lhes por dentro uma tinta preta, por fora outra amarela, que
se não tira nunca; e estas são as suas porcelanas.