Segunda parte - Capítulo XLVI Tratado descritivo do Brasil em 1587 · Capítulo 121 de 271
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Segunda parte - Capítulo XLVI

Em que se apontam os legumes que se dão na Bahia.

Pois que até aqui tratamos dos mantimentos naturais da terra

da Bahia, é bem que digamos dos legumes que se nela criam. E

comecemos pelas favas, que os índios chamam comendá, as quais

são muito alvas, e do tamanho e maiores que as de Évora em

Portugal; mas são delgadas e amassadas, como os figos passados.

Há outras favas, meio brancas e meio pretas, mas são pequenas; e estas favas se plantam a mão na entrada do inverno, e quando nascem põe-se ao pé de cada um um pau, por onde atrepam,

como fazem em Portugal às ervilhas; e, se têm por onde atrepar,

fazem grande ramada; a folha é como a dos feijões da Espanha,

mas maior; a flor é branca; começam a dar a novidade no fim do

inverno e dura mais de três meses. Estas favas são, em verdes, mui

saborosas, e cozem-se com as cerimônias que se costumam em

Portugal, e são reimosas como as do reino; e dão em cada bainha

quatro e cinco favas, e depois de secas se cozem muito bem, e não

criam bichos, como as da Espanha, e são muito melhores de cozer;

e de uma maneira e de outra fazem muita vantagem no sabor às

de Portugal, assim as declaradas como a outra casta de favas, que

são brancas e pintadas de pontos negros.

Dão-se nesta terra infinidade de feijões naturais dela, uns são

brancos, outros pretos, outros vermelhos, e outros pintados de

branco e preto, os quais se plantam a mão, e como nascem põe-se-

-lhe a cada pé um pau, por onde atrepam, como se faz às ervilhas, e

sobem de maneira para cima que fazem deles latadas nos quintais,

e cada pé dá infinidade de feijões, os quais são da mesma feição

que os da Espanha, mas têm mais compridas bainhas, e a folha

e flor como as ervilhas; cozem-se estes feijões sendo secos, como

em Portugal, e são mui saborosos, e enquanto são verdes cozem-se

com a casca como fazem às ervilhas, e são mui desenfastiados.

Chamam os índios jerimus às abóboras-da-quaresma, que são

naturais desta terra, das quais há dez ou doze castas, cada uma

de sua feição; e plantam-se duas vezes no ano, em terra úmida e

solta, as quais se estendem muito pelo chão, e dá cada aboboreira

muita soma; mas não são tamanhas como as da casta de Portugal.

Costuma o gentio cozer e assar estas abóboras inteiras por lhe não

entrar água dentro, e depois de cozidas as cortam como melões, e

lhes deitam as pevides fora, e são assim mais saborosas que cozidas em talhadas, e curam-se no fumo para durarem todo o ano.

As que em Portugal chamamos cabaços, chama o gentio pela

sua língua geremuiê, das quais têm entre si muitas castas de diferentes feições, tirando as abóboras compridas, de que dissemos

atrás. Essas abóboras ou cabaços semeia o gentio para fazer delas

vasilhas para seu uso, as quais não costuma comer, mas deixam -

-nas estar nas aboboreiras até se fazerem duras, e como estão

de vez, curam-nas no fumo, de que fazem depois vasilhas para

acarretarem água, por outras pequenas bebem, outras meias levam às costas cheias de água quando caminham; e há alguns destes cabaços tamanhos que levam dois almudes e mais, nos quais

guardam as sementes que hão de plantar; e costumam também

cortar esses cabaços em verdes, como estão duros, pelo meio, e

depois de curadas estas metades servem-lhes de gamelas, e outros

despejos, e as metades dos pequenos servem-lhes de escudelas, e

dão-lhes por dentro uma tinta preta, por fora outra amarela, que

se não tira nunca; e estas são as suas porcelanas.

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