Primeira parte - Capítulo XXXV
Em que se declara a costa e terra dela do Rio de Santa Cruz até o de
Porto Seguro.
Do Rio de Santa Cruz ao de Itacumirim é meia-légua, onde esteve o engenho de João da Rocha. Do Rio de Itacumirim ao de Porto
Seguro é meia-légua; e entre um e outro está um riacho, que se
diz de São Francisco, junto das barreiras vermelhas. Defronte do
Rio de Itacumirim até o de Santa Cruz vai uma ordem de arrecifes
que tem quatro boqueirões, por onde entram barcos pequenos; e
faz outra ordem de arrecifes baixos mais ao mar, que se começam
defronte do engenho de João da Rocha, e por entre uns arrecifes,
e os outros é a barra do Porto Seguro, por onde entram navios de
sessenta tonéis; e, se é navio grande, toma meia carga em Porto
Seguro, e vai acabar de carregar em Santa Cruz.
Porto Seguro está em dezesseis graus e dois terços, e quem vem
de mar em fora vá com boa vigia, por amor dos baixos. E para conhecer bem a terra, olhe para ao pé da vila, que está num alto, e
verá umas barreiras vermelhas, que é bom alvo, ou baliza, para
por ele a conhecer. Entra-se esse rio leste-oeste com a proa nestas
barreiras vermelhas até entrar dentro do arrecife; e estando dentro vá com a proa ao sul, e ficará dentro do rio. Da outra banda
dos baixos e contra o sul está outra barra, por onde entram navios
do mesmo porte; quem entrar por esta barra, estando dentro dela,
descobrirá um riacho, que se diz de São Francisco; e o descobrindo, vá andando para dentro, até chegar ao porto. De Porto Seguro
à vila de Santo Amaro é uma légua, onde está um pico mui alto
em que está a ermida de Nossa Senhora da Ajuda, que faz muitos milagres. De Santo Amaro ao Rio de Tororam é uma légua,
onde está um engenho, que foi de Manuel Rodrigues Magalhães,
e junto a este engenho uma povoação, que se diz de São Tiago
do Alto, no qual rio entram caravelões. Desse Rio de Tororam ao
de Maniape são duas léguas, e antes de chegarem a ele estão as
barreiras vermelhas, que parecem, a quem vem do mar, rochas de
pedras. Do Rio de Maniape ao de Urubuguape é uma légua, onde
está o engenho de Gonçalo Pires. Do Rio de Urubuguape ao Rio do
Frade é uma légua, onde entram braços, e chama-se do Frade por se
nele afogar um, nos tempos atrás. Do Rio do Frade ao de Juuacema
são duas léguas, onde esteve uma vila que se despovoou o ano de
1564, pela grande guerra que tinham os moradores dela com os
aimorés. Neste lugar esteve um engenho, onde chamam a ponta
do Cururumbabo.